CAPITULO 01

Conexão Viking

Volume Dois

O RANCHO NEVADO

Da varanda de madeira maciça de seu vasto, protegido e isolado rancho ao pé das imponentes Montanhas Rochosas, no Colorado — coração da Federação da Nova América —, Edinelson Nuñez contemplava o próprio legado com a postura de quem domina as fronteiras do invisível.

A perder de vista, as pastagens verdejantes estendiam-se sob o céu alpino, abrigando o gado seletivo criado para a produção de leite e derivados nobres que abasteciam os principais fornecedores civis e militares de toda a Federação.

O trato diário com os animais, a ordenha mecanizada, a purificação dos laticínios na usina interna e até mesmo a complexa logística de venda, pesagem, carga, descarga e aquisição de insumos operavam sob automação total.

O casarão principal erguia-se em linhas rústicas e tradicionais, uma fachada de troncos grossos e pedras rústicas projetada especificamente para enganar os olhos de satélites espiões e fiscais governamentais. No entanto, a verdadeira engrenagem da propriedade ocultava-se em seu subsolo secreto: um bunker blindado de altíssima tecnologia operando em frequências quânticas subatômicas — a base operacional de suas missões de retaguarda através das dobras do tempo.

O celeiro histórico e os pastos circundantes eram patrulhados por robôs humanoides de revestimento sintético que imitavam peões à distância; os tratores e caminhões de escoamento eram veículos estritamente autônomos. Era o disfarce perfeito para manter funcionários humanos bem longe dali, preservando o maior segredo do século XXI.

O ambiente exalava uma paz natural profundamente integrada à tecnologia galiônica avançada. EdiNuñez suspirou, deixando de lado o relatório logístico do dia que revisava na superfície transparente de seu vítreotablet para concentrar sua atenção em Livy, que se aproximava com passos leves pela varanda. Ela trazia entre as mãos delicadas uma tigela fumegante de mingau de aveia, preparado por ela mesma na moderníssima e intimidadora cozinha por indução magnética da casa.

— Espero que agora eu tenha acertado o ponto do cozimento e a quantidade exata desses flocos que você tanto gosta — disse ela, o sotaque britânico rústico ainda ecoando em sua voz macia.

— Da última vez que tentei mexer naquele painel de luzes, usei uma embalagem inteira e a mistura quase virou uma massa sólida, dura feito pedra de calçamento…

Ela estendeu a tigela, fixando nele os olhos amendoados, esperando ansiosamente pelo veredicto. Ed não dava a mínima para o resultado do ponto culinário; sua mente estava concentrada inteiramente no bem-estar e na beleza magnética daquela jovem mulher. Adaptar uma mente moldada no século XVIII a um mundo isolado por três séculos de evolução linear exigia uma paciência extrema e cirúrgica, e isso o agente temporal possuía de sobra.

Há menos de cinquenta anos, o planeta pulsava com o ápice tecnológico das chamadas cidades inteligentes baseadas no silício, antes que o grande colapso bi-binário de 2033 varresse as redes globais e os smartphones da face da Terra, forçando a humanidade a reconstruir a civilização sobre o gálio líquido.

Para alguém nascido em 1780, Livy conviveu 18 anos entre a miséria bruta e cavalos. O ano de 2075 deveria parecer-lhe pura feitiçaria. Ed, por seu lado, já nascera inserido nessa nova ordem, sem o antigo mundo conectado na memória coletiva; os raros remanescentes maduros da antiga Geração Alfa, agora cruzando a casa temerária dos sessenta anos de idade, eram os únicos que ainda lamentavam pelos cantos a falta que a velha internet comercial lhes fazia.

Livy inclinou-se e lhe deu um selinho carinhoso após Ed aprovar a textura da guloseima. Ele devorou cada colherada do mingau com apetite genuíno, garantindo com um sorriso que a receita estava impecável. Animada com o sucesso, a jovem ajeitou as mechas do cabelo e afirmou que voltaria imediatamente para o interior da residência; estava testando novas fórmulas de panificação quântica e logo o convocaria para atuar como seu provador oficial de iguarias.

Ed assentiu com a cabeça e, no instante em que ela se virava para entrar, desferiu um tapinha firme e estalado no curto short jeans que cobria sua bunda empinada e escandalosamente sexy, cuja parte frontal estava protegida pelo avental doméstico. Livy estancou o passo de imediato, sorrindo de forma maliciosa por cima do ombro. Ela esperava — e de fato levou, na outra face da bunda — uma segunda palmada carinhosa de incentivo antes de girar nos calcanhares.

Entrou pelo corredor rebolando o quadril em uma provocação debochadamente deliberada, deixando o agente completamente imerso em pensamentos quentes e pecaminosos.

A visão daquela silhueta esguia o arrastou de volta à insana e violenta viagem à Inglaterra do século XVIII.

— “Sucesso absoluto no resgate do Códice Tártaro e do seu respectivo manual de decodificação”— pensou EdiNuñez, cruzando os braços enquanto um sorriso de canto surgia em seus lábios, ciente de que o bem mais valioso e perigoso que arrancara do passado acabara de entrar na casa rebolando o traseiro.

A diretriz da missão nunca fora alterar o destino macro da Revolução Francesa — intervenções dessa escala eram estritamente proibidas pela imprevisibilidade de causar danos imensuráveis às equações de estabilidade quântica. O objetivo real era cirúrgico: retirar de cena um artefato de tecnologia anacrônica que daria uma vantagem tática e de inteligência militar a Bonaparte.

Caso o Códice caísse nas mãos do General Corso, o mundo inteiro se ajoelharia diante do futuro imperador francês, e o terror Jacobino cruzaria os oceanos, indo muito além do Velho Mundo. Deixá-lo menos letal era o único objetivo da missão.

Como de costume, Ed trazia consigo um souvenir físico de cada era visitada para alimentar seu acervo particular oculto no bunker, e aquela missão em solo britânico não fora diferente. Embora tivesse ganhado seu maior e mais definitivo prêmio na forma de sua companheira, o espólio material fora a balestra exótica, confiscada de um mercenário beduíno que teve o infortúnio de cruzar seu caminho em Manchester. Uma peça de engenharia bélica perfeita, entalhada em ébano e aço temperado, que agora repousava em um suporte de proteção sob atmosfera controlada em sua sala de armas.

O tempo era uma força implacável e violenta; por algum deslize fora de hora no uso da palavra ou no manejo errado de sua espada ele a perderia para o abraço da morte. A trajetória terrena dela no passado fora abortada de forma abrupta, mas a jornada real ao seu lado, na crista do amanhã, estava apenas começando.

— “As lacunas históricas foram fechadas na MTC. O gordo corrupto pagou sua dívida com a própria vida; o charmoso boticário pagou sua traição na forca, logo após a queda de Napoleão em Waterloo, quando "naturalmente" veio à tona seu nome na participação da tentativa de golpe ao rei. Aletheia deu um jeitinho de inserir as provas no lugar certo, era o "pano úmido" na última poeira que limpou de vez minha passagem em Rochdale. Dei sorte de saltar a tempo com o Encriptador e com ela nos braços. No final, o vetor causal deu certo”

Ed concluiu mentalmente, ajustando os parâmetros de segurança do tablet. Apesar da interferência letal dos espiões franceses no galpão úmido de Manchester, o agente relembrava com uma ponta de saudade audaciosa daquela aventura. Ela marcara sua existência pelos motivos mais óbvios do universo... a sua indomável Livy Emanuelle.

Do outro lado da casa, na amplitude térmica da cozinha principal, a jovem também deixava seus pensamentos vagarem livremente pelas linhas invisíveis do tempo. Ela aguardava pacientemente enquanto o visor digital do forno de plasma terminava de assar uma fornada de biscoitos de amêndoas, enquanto mexia com uma colher longa uma jarra de suco natural resfriado instantaneamente por nitrogênio.

— “Após aquele clarão azulado que rasgou o céu escuro na estrada de Manchester, a própria realidade ao meu redor pareceu se desfazer e me refez”— Refletia Livy em seu monólogo interior, ajeitando o avental com as mãos ainda trêmulas pelo fantasma da transição dimensional.

— “Eu não mudei apenas o ano e as roupas, mudei o chão do mundo. Vim da minha velha e saudosa Inglaterra direto para este misterioso Novo Mundo, um lugar distante que eu só sabia que existia de verdade porque escutava os fidalgos falando dele nas tavernas, enquanto eu tentava roubar suas bolsas. Além do mais, olho no espelho e já não me reconheço. Não sou mais nem a sombra fantasma daquela mendiga faminta que vivia encolhida nas sombras e na lama fria de Rochdale, assustada, fugindo das pauladas dos truculentos constables.”

Ao cruzar o portal quântico, os registros civis do futuro a rebatizaram oficialmente como Livy Emanuelle, a companheira protegida de um autêntico viajante temporal, habitando a estrutura mais bizarra e fascinante que seus olhos já haviam contemplado.

Tudo ali dentro representava um desafio concreto e assustador para quem, há menos de sessenta dias lineares, era apenas uma rata de rua invisível aos olhos da elite britânica. O ano de 2075 era uma realidade abstrata, violenta e fascinante, separada por um abismo intransponível de trezentos anos de história, mas que agora parecia comprimido na névoa de suas memórias mais íntimas.

... Continua...

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.