CAPITULO 02

Conexão Viking

Volume Dois

EVENTO 33 E O SILÊNCIO SILÍTICO

2075 erguia-se sobre as cinzas de um passado recente que a maioria sobrevivente preferia esquecer. O planeta mudara de forma drástica, violenta e irreversível; a população global fora reduzida a menos de um quinto do total existente nas primeiras décadas do século XXI.

O estopim dessa purgação demográfica e civilizatória fora o colapso estrutural de 2033, o ano em que o sistema hiperintegrado de tecnologia binária, que gerenciava de forma invisível e absoluta a malha mundial de computadores, finanças e suporte à vida, ruiu por completo em questão de escassos attossegundos.

A grande quebra não foi fruto de uma guerra de nações ou de um ataque de hackers, mas decorrente de um fenômeno cósmico silencioso, inesperado, catastrófico e de proporções apocalípticas: o Pulso do Horizonte de Eventos (PHE). Batizado assim quase três décadas depois pela comunidade astrofísica remanescente — pois na época não havia eletricidade, nem comunicação para se debater o assunto, a única luta era por sobrevivência —, o pulso atravessou o sistema solar como uma foice invisível por ter sua origem teorizada na erupção gravitacional de um buraco negro supermassivo nos confins do universo profundo.

Os Network Operations Engineers das grandes corporações mundiais, profissionais que administravam, gerenciavam e projetavam gigantescas redes de dados globais, ficaram sem ter como tentar conter o colapso das redes naquele fatídico dia. No jargão tático e cínico do momento, restou apenas a ironia anedótica de quem olha para os destroços e pergunta, em tom de derrota completa: “Alguém anotou a placa do caminhão cósmico que nos atropelou?”.

A ciência fragmentada que sobreviveu ao cataclismo jamais conseguiu decifrar ou prever a mecânica exata daquele fenômeno. A aleatoriedade absoluta do disparo astrofísico, desprovido de qualquer assinatura prévia ou registro análogo na história geológica e paleomagnética da Terra, impossibilitou conclusões acadêmicas exatas.

Para os sobreviventes, restou apenas a conformação brutal de que a humanidade estava simplesmente no lugar errado, na hora errada do relógio universal.

Por um mistério do destino ou por pura mecânica astrofísica, a peculiaridade da onda deu apenas uma sobrecarga gigantesca no Sol, abastecendo-o de energia, porém sem alterar sua dinâmica.

Ele absorveu o impacto de forma inerte, sem gerar ejeções de massa coronal ou tempestades solares adicionais. Os teóricos mais tardios especularam que, por ter sua composição puramente plasmática à base de hidrogênio e hélio, desprovida de elementos sólidos, o Sol evitou o pior.

A onda manifestava-se inofensiva nas matérias orgânicas, nos gigantes gasosos e em corpos celestes desprovidos de malhas condutoras estáveis.

Quando a normalidade forçada retornou após o sistema galiônico ser implementado, o PHE nem chegou a ser fonte de debates científicos; afinal, na filosofia prática do novo mundo, “com aquilo que não se pode prever ou evitar, não adianta perder o precioso sono”.

O que os registros empíricos conseguiram consolidar e arquivar para registro foi o impacto mecânico da onda. O pulso externo, ao interceptar a órbita da Terra, sobrecarregou de forma avassaladora a eletrodinâmica do plasma presente na ionosfera.

Não houve um impacto biológico direto na carne humana ou animal; as células orgânicas permaneceram intactas sob a radiação. Contudo, a descarga de energia foi de tal magnitude que forçou uma reconexão magnética violenta e sem precedentes nas camadas mais profundas do núcleo planetário.

As linhas de campo magnético da Terra, esticadas ao limite de sua elasticidade física pela interferência externa, romperam-se e se reorganizaram sob o manto em um efeito chicote colossal.

Esse verdadeiro estalo geomagnético gerou um rebote catastrófico: um poderoso Pulso Eletromagnético Secundário (PES), disparado de dentro para fora, das entranhas da própria Terra em direção ao espaço. Ao atravessar a crosta terrestre, o PES colapsou instantaneamente a matéria semicondutora de todos os dispositivos existentes.

Microchips derreteram, placas-mãe fritaram e redes de fibra óptica sofreram surtos térmicos, criando um bug de consequências apocalípticas. A reação em cadeia subiu em velocidade terminal, escalando da troposfera à exosfera e alcançando o vácuo profundo.

O surto eletromagnético não poupou sequer os orgulhosos monumentos da ciência espacial, atingindo em cheio o telescópio James Webb em sua órbita de halo no ponto Lagrangeano L2, a um milhão e meio de quilômetros de distância, transformando o titã dos espelhos dourados em um pedaço de sucata flutuante e cega.

Tudo o que dependia do silício foi literalmente torrado em escala planetária. Como o PHE original havia varrido todo o Sistema Solar, as redes de monitoramento espacial e as sondas interplanetárias que mapeavam Marte, Júpiter e os asteroides vizinhos também emudeceram para sempre.

A Terra, contudo, com sua civilização totalmente dependente da eletrônica digital, foi conduzida de volta à idade das trevas energéticas em um único piscar de olhos. Todas as riquezas intangíveis foram pulverizadas; o caos social instalou-se de forma imediata e generalizada.

A corrida desesperada aos bancos físicos mostrou-se uma tragédia infrutífera. Cada cidadão que tinha uma conta ativa, juntos ostentavam trilhões depositados em bancos físicos e virtuais, mas não havia o valor correspondente em papel-moeda circulando ou guardado nos cofres de concreto.

Sem energia elétrica para abrir os cofres ou alimentar os caixas eletrônicos, e sem telas para exibir os saldos, o ecossistema financeiro evaporou. Nem adiantava chamar os escassos funcionários para validar as transações de forma manual; esse era um sistema obsoleto, aposentado quando o cartão magnético e os celulares facilitaram a vida de cada cliente a ter acesso aos serviços bancários na palma da mão.

Agora eram todos reféns da comodidade proporcionada pela praticidade tecnológica, pegos em uma armadilha criada pelo próprio sistema — algo inesperado, mas perfeitamente previsível.

É fácil imaginar a catástrofe humanitária e a violência que se seguiram nas ruas quando a fome e a falta de água potável atingiram os centros urbanos desabastecidos. Vamos te poupar dos detalhes.

Duas décadas após o início do colapso, quando os historiadores finalmente conseguiram organizar os fatos, o fenômeno foi batizado oficialmente nos arquivos didáticos como o “Evento 33 – a Onda de Khaos”.

Essas duas longas décadas de transição brutal marcaram o período que a história chamaria de o Silêncio Silítico. Foi um inverno tecnológico severo e impiedoso, caracterizado pela extinção imediata de toda a infraestrutura humana baseada no silício semicondutor.

A barbárie e a lei do mais forte reinaram soberanas a partir do Marco Zero em 2033. Cidades outrora brilhantes se transformaram inicialmente em correria, depois em gritos de agonia, logo vieram os pedidos desesperados de socorro e, por fim… em labirintos escuros de concreto e silêncio.

Foram tempos terríveis, não apenas pela perda do ecossistema digital e da energia elétrica, mas principalmente pelas guerras civis de exaustão e pelo colapso de governos que se instalaram de forma descontrolada em todos os continentes.

... Continua...

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.