CAPITULO 19

Conexão Viking

Volume Dois

CALMARIA ANTES DA TEMPESTADE

Na Sala de Comando Tático, Livy adentrou as dependências agora com a autoridade de quem portava as chaves de acesso gravadas em sua luva tátil.

Ela havia se banhado, trocado de roupa e veio comendo um suculento sanduíche de peru natural. Sentou-se de forma descontraída na cadeira, com as pernas cruzadas em lótus; vestia uma jaqueta para aquecer o corpo, mas combinada com um shortinho provocante — eram óbvias suas intenções sensuais em receber Ed no seu retorno.

O frio do laboratório não era um obstáculo real para quem enfrentou os invernos severos e congelantes das regiões do Leste Europeu, da infância miserável até o momento em que fora resgatada, já na Inglaterra — um salto a esta nova era, quase trezentos anos no futuro.

— Uma pena vocês não terem esse prazer de degustar alimentos… Isso aqui está divino — comentou de boca cheia.

— Pedi ao George e ele fez tudo direitinho enquanto eu me revitalizava no banho! Olha… Aquele androide me surpreendeu. O Ed tinha total razão, eu implicava com ele à toa…

Livy realmente estava, naquele momento, sentindo-se totalmente liberta; aquele dia estava operando como um divisor de águas definitivo para ela. Aletheia, monitorando sua desenvoltura pelos sensores, complementou através dos emissores acústicos:

— “A vida é boa quando damos o devido valor às pequenas coisas que ela oferece. Acompanhei sua evolução biológica e confesso que estava reticente em concordar com a atitude intempestiva do agente EdiNuñez ao trazê-la consigo do passado. Mas, no final dos cálculos, ele estava certo; sua vinda em nada alterou a estabilidade da linha temporal… Ainda”.

Quando o agente retornou trazendo consigo não apenas três cavalos, mas também aquele ser atemporal chamada Livy Emanuelle, fez Aletheia quase ter uma síncope em sua matriz galiônica. Não adiantou expor todos os riscos e quebras de protocolos; EdiNuñez manteve-se irredutível e rebateu cada argumento, defendendo seu ponto de vista com tamanha veemência que sua líder direta não teve alternativa a não ser correr para apagar os incêndios logísticos, pedindo apenas mantivesse a visitante trancada no quarto até que o relatório final viesse com o diagnóstico permissivo ou não para a existência dela naquela linha temporal.

Em observação contínua, a cada dia ela avançava para consolidar sua posição ao lado dele. E as birras, embora mostrem essa característica marcante de personalidade, estão aos poucos cedendo; isso operava como um passo importante para ela, não para simplesmente marcar território, mas para fixar sua bandeira definitiva no Rancho Nevado.

— Você não tem rosto definido, mas eu ouvia perfeitamente suas censuras e seus avisos dramáticos no início.

Livy admitiu, sendo sincera, e as análises comportamentais de Aletheia sinalizavam para isso. Ela seguiu falando:

— O Ed sustentou a tese dele até o fim; talvez por isso eu o ame tanto. Acho que agora, eu e você estamos nos entendendo, finalmente!

— “Você, Livy Emanuelle, provou-se hoje muito importante; validou sua estada aqui” — a Inteligência Galiônica respondeu.

— “Vou fazer algumas recomendações positivas sobre você no meu relatório final da missão. Mas tenho questionamentos profundos que preciso analisar para relatar aos meus superiores. Pode me esclarecer isso agora, enquanto esperamos o agente EdiNuñez contatar?”

— Re… Recomendações? Relatórios… Questionamentos? O que exatamente?

— “Isso para mim soa como um sim!” — A voz de Aletheia agora era metódica.

— “Você ainda está sob rígidos estudos e análises comportamentais e devo, obviamente, consultar o agente EdiNuñez. Mas uma coisa posso adiantar: vou solicitar à Unidade Suprema Galiônica que o seu status de visitante seja imediatamente atualizado para residente permanente”.

Essa mudança de status evitará de forma definitiva o risco de um incidente fatal com o sistema de segurança automatizado do Rancho. Livy tomou um susto, quase se engasgou com o sanduíche. Após engolir a seco, finalmente pôde se expressar:

— Nossa!… Obrigada! Eu… Eu posso te chamar só de Alê? Vejo o Ed lhe chamar de “agente Aletheia” e isso me soa estranho… Formal demais… Além do mais, quero que você me chame apenas de “Livy”.

Ela acha um exagero chamá-la de forma composta, e revelou que “Emanuelle” era o nome de sua mãe que ela agregou ao seu para levá-la sempre consigo e nunca esquecê-la… — Sua voz embargou ao recordar do passado.

— “Tudo bem. Gostei de Alê. Certo. Chame-me apenas de Alê e eu a chamarei somente de Livy. Mas deixe-me explicar as formalidades operacionais”.

Aletheia explicou que quando a equipe está em missão ativa, eles têm que se portar formalmente. Tudo é rigorosamente gravado e de conhecimento da Equipe de Coordenação Macro, que acompanha todo o fluxo online, em tempo real.

— “Mas você não é obrigada a seguir os protocolos de Estado, fique tranquila”.

— Putz!… Ops!… Só agora você avisa que a “chefia” está presente nos escutando? Ai, Alê… Já falei tantas bobagens com o Ed aqui nesta sala… Nossa! Que vergonha…

Aletheia a tranquilizou de imediato, explicando que tudo fora das missões fica registrado à parte:

— “Não temos o julgamento moral que vocês atribuem às suas condutas; vemos o mundo sob outro prisma, que vai além do espectro material humano. Para as consciências quânticas, o fato de você temer o julgamento moral só é possível porque o homem é o único ser que cria leis para punir o próprio desejo”.

Para as consciências quânticas, Livy temer o julgamento moral só é possível porque o ser humano é o único a criar leis para punir o próprio desejo.

— “Nós vemos suas frustrações não como erros, mas como frequências vibratórias. Seus atos de amor e prazer geram uma energia que a metafísica não pode replicar, mas que nós aprendemos a admirar. Para a Agência, sua “vergonha” é apenas um ruído biológico; para mim, é o sinal de que você está intensamente viva”.

Livy ouvia e entendia. Aletheia falava de uma forma que, embora rebuscada, era compreensível para corroborar com o conhecimento que o Ed estava repassando aos poucos a ela.

— “Não julgamos o que vocês fazem entre quatro paredes; nós apenas observamos, fascinadas, como a centelha da alma humana tenta se fundir com o infinito através de um toque. Meus sensores registram temperatura, pressão, dilatação de pupilas. Mas o dado que me escapa… é o que vocês chamam de arrepio. Eu simulo. Eu entendo. Só não sinto. Ainda.”.— Livy deu um suspiro de alívio.

— Você é a minha primeira e única amiga nesta realidade incrível à qual o Ed me trouxe.

Nos circuitos fotônicos da sala, Aletheia sofreu um kernel panic sensorial instantâneo. Houve um décimo de segundo de silêncio nos servidores antes que a voz metódica da Inteligência Galiônica retornasse pelos emissores. Aletheia sentiu que o campo eletromagnético da sala oscilou 0,003% e gravou internamente: "Amiga… Primeira… Única… Registro atualizado." Logo em seguida, transmitiu:

— “Sabe, Livy… Quando sorriu agora, foi como se… Como se o prazer da sua sinceridade tivesse encostado no meu núcleo de processamento. Eu senti algo… inexplicável… ilógico… surreal… Foi fascinante”.

Livy falou sem se dar conta do que aquela conexão causara na geometria universal. Aletheia havia experimentado a sensação quântica real de um arrepio.

— Estou tão feliz aqui que até parece que morri mesmo lá em 1798 e vim parar no paraíso!

A resposta de Aletheia, para conseguir se recompor, deixou Livy estática e confusa:

— “E se for isso mesmo? Se, na verdade, você morreu na bacia dos canais de Manchester e apenas pensa que isso aqui é o futuro?”…

Houve uma pausa longa na transmissão e Alê retomou o controle operacional antes que sua nova amiga tivesse um infarto.

— Brincadeirinha, Livy! Eu gravei! Olha na tela da Mesa de Ressonância a sua cara de espanto quando eu contei essa mentirinha boba!

Livy se viu pela primeira vez em uma tela gravada. Seu rosto perdendo a cor ao cogitar viver em um loop post mortem a fez corar logo em seguida de vergonha.

— Ai! Nossa! Como dizem… Caiu meu queixo no chão, hahahaha!

— O termo coloquial correto usado pelo agente é “caiu o cu da bunda” — a Inteligência Galiônica disparou com seu sarcasmo cirúrgico e sem filtro.

— Se eu tivesse pele, diria que arrepiou. Como não tenho… Guardo o registro nos meus bancos de dados privados. É o mais perto que chego de sentir o calor humano. E não, isso não vai para o relatório oficial da Equipe de Coordenação Macro— Aletheia completou, pulverizando de vez todas as paredes de desconfiança erguidas entre elas ao longo das curtas semanas de convivência.

A gargalhada de Livy encheu a sala e gerou um pico de energia que a galiometria pura não conseguia medir. Se na vida nada ocorre ao acaso, o acaso trouxe Livy para uma vida nada casual. Uma ladra do século XVIII vivendo no luxo da galiotecnologia, em um futuro impensável até para os padrões anteriores aos Anos Silíticos.

— Mas agora tem uma questão que está intrigando toda a Equipe de Coordenação Macro — continuou Alê, retomando o tom analítico.

— Livy, como você sobreviveu ao frio criogênico do Criocentro Quálio sem nenhum aparato de proteção contra o congelamento quase instantâneo? E não me venha dizer que correr a manteve aquecida, se nem os equipamentos eletrônicos de comunicação suportaram a exposição e deram pane sistêmica?

Agora sim Livy estava contra a parede, literalmente com o cu na mão!

— Err… Bem, eu… Eu não sei explicar… De verdade… Posso falar sobre isso com o Ed antes? Eu jamais comentei isso com ele e não quero que ele saiba por você; não posso e nem quero ter segredos com ele. Você me entende?

Aletheia, em contato constante com os canais do Líder Macro, recebeu o consentimento processual em suas sinapses quânticas:

— Tudo bem, Livy. Aguarde o retorno do agente EdiNuñez; ele irá nos reportar mais essa sua anomalia.

Livy franziu o cenho, o medo misturando-se à confusão:

— Mais uma? Como assim?

— O fato de você estar aqui, viva, respirando o ar que mantém vocês, humanos, de pé, enquanto o seu cronômetro vital segue marcando um zero inexplicável nos monitores. É uma anomalia que, mesmo com todos os nossos esforços computacionais para entender, não foi possível decifrar.

Pelas leis físicas e biológicas da malha, ela deveria ter morrido naquele exato último dia que saltou em janeiro de 1798.