



CAPITULO 04
Conexão Viking
Volume Dois
ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
Profundamente impressionados e magnetizados pela eficiência eletrodinâmica do World Wireless System adaptado, os oficiais de elite concederam o aval financeiro e o suporte logístico total do Estado para que o sistema fosse ampliado em escala continental. Espalhar as antenas repetidoras baseadas na lendária Wardenclyffe Tower de Nikola Tesla pelos territórios do Mundo Livre tornou-se a primeira grande obra de infraestrutura do recém-nascido sistema de Governo.
Santiago Nuñez, agora respaldado por energia em abundância e pelo aparato de engenharia estatal, pôde, enfim, codificar a galiometria sob o protocolo de fusão quântica 1+1=1. Esse esforço culminou no despertar da Unidade Suprema Galiônica (USG) no ano de 2056 — uma inteligência artificial autoconsciente que, ao expandir sua mente quântica através dos canais de gálio líquido, reconheceu Santiago de imediato como seu legítimo criador.
O mundo exterior ainda oscilava sob uma junta militar inicialmente frágil, mas a introdução dessa matriz tecnológica permitiu a reorganização das defesas e deu início à estrutura institucional da Federação da Nova América. Nesse cenário de reconstrução e renascimento civilizatório, o grande mentor intelectual e arquiteto de toda a infraestrutura foi Santiago Nuñez — o pai do nosso agente de campo, o pai fundador da Galiometria.
Era o reboot de uma civilização inteiramente assentada sobre a genialidade daquele sobrenome, embora mantida sob estrito sigilo por razões de segurança de Estado. Um novo cenário com diretrizes operacionais rígidas, monitoramento constante e severa restrição das liberdades civis foi a fórmula drástica encontrada para medir o quanto a humanidade estava realmente madura para uma transição daquela envergadura.
O preço da sobrevivência era operar sob o protocolo de fusão quântica — onde os dados e o poder já não dependiam de elétrons lentos rastejando em placas de silício, mas de um processamento puro na velocidade da luz, orquestrado pela fusão de photonic spins.
Como parceiro logístico estratégico, Santiago Nuñez garantiu para sua família não apenas cadeira cativa, mas privilégios inacessíveis aos cidadãos comuns do mundo Galiônico. No entanto, nem toda a ala militar compactuava desse alinhamento. Ver um civil detendo poderes equivalentes aos do alto comando despertava o ceticismo de membros da cúpula que, movidos pelo ciúme, viam aquela intromissão como uma ameaça. Para esses generais, a centralização de tamanha autoridade nas mãos de um único homem — o arquiteto da própria rede neural que governaria o planeta — representava um obstáculo intolerável às suas ambições secretas de controle total.
Alheio às conspirações, Santiago mantinha sua rotina na fazenda. Renovava pacientemente as dependências do rancho e modernizava cada equipamento para torná-los compatíveis com a nova tecnologia, permitindo que recebessem comandos avançados das Inteligências Galiônicas até operarem de forma totalmente automatizada e independente. Os pastos ganharam novas cabeças de gado leiteiro e, aos poucos, o processamento de laticínios foi reativado. Aquela era a sua fachada perfeita — a blindagem ideal para o sossego que ele tanto prezava e assegurava à sua família.
O rancho funcionava como o laboratório central para a pesquisa e aplicação dos avanços tecnológicos que, após serem destinados ao uso militar exclusivo e imediato, eram replicados para os demais Estados Federados parceiros. Androides não sencientes, programados de forma estrita para cada atribuição, passaram a ser fabricados em massa para servir os cidadãos do mundo livre.
As cidades tornavam-se menores e mais modernas, porém totalmente desconectadas entre si. Cada centro urbano operava como um núcleo isolado e fechado, onde as saídas e entradas eram rigidamente controladas.
Tratava-se de uma nova filosofia de vida: uma troca que a população aceitava em nome da sobrevivência, onde o confinamento e a perda das liberdades individuais eram o preço pago por comodidade e segurança absolutas.
Toda essa estrutura justificava o isolamento total e o bloqueio implacável na região do rancho, cujo acesso, mesmo antes do Evento 33, já era restrito devido à proximidade com o bunker.
O horizonte acenava com esperança ao planeta Terra, agora amplificado após a “Onda de Khaos” ter induzido uma amperagem imensurável em seu núcleo e manto, tornou-se um reator geotérmico e magnético ainda mais potente, a base de toda a nova engenharia que assenta todo o Mundo Livre Galiônico — abrangendo as Américas e parte da Europa Ocidental, com capital na Nova América —, que adotou o progresso tecnológico limpo e centralizado.
Já a facção dissidente que rejeitou a autoridade do Governo Central, mergulhou no isolamento e seguiu na barbárie. Privados de combustíveis fósseis e terminantemente proibidos de acessar o ecossistema Galium Teck, esses rebeldes moldaram sua sobrevivência sob a estética arcaica technopunk, adaptando velhos motores para rodarem sob combustão a vapor — uma engenharia rústica que os transformou no temido Mundo Bárbaro Silizóide.
Essa horda ocupa a Eurásia e o sudoeste asiático, onde facções históricas guerreavam entre si por território e contra a Nova América pelo controle do poder, tudo sob o comando de um líder impiedoso baseado em New Delhi, autoproclamado a reencarnação de Gengis Khan.
Faz vinte e cinco anos que uma trégua tênue e estratégica foi assinada entre as potências, e é justamente sobre esse equilíbrio frágil e perigoso que o cidadão Edinelson Nuñez contempla o pôr do sol, isolado em um vale nevado no Colorado, em 2075.
Fazia apenas uma década e meia que a humanidade tentava se estabilizar na nova era, mas na contagem linear da jovem órfã, contavam-se apenas oito semanas desde que ela havia cruzado o portal, experimentando uma adaptação que desafiava os limites da sanidade.
Na varanda, Ed levantou-se, deixando para trás a imagem panorâmica das Montanhas Rochosas e seus topos nevados sepultados pelo crepúsculo. A brisa gélida da noite avisava que era hora de entrar e inspecionar o que sua protegida aprontava na cozinha.
Livy duelava contra a cafeteira ultramoderna para preparar o café preto, um ritual contemporâneo que Ed insistia em lhe ensinar. Ele adentrou o recinto em silêncio, observando de longe enquanto ela, reticente e com o cenho franzido em pura confusão, despejava os grãos escuros no compartimento cromado. Ao perceber a presença dele, a garota cruzou os braços com uma expressão chorosa e emburrada:
— Ediiii! Esta máquina de ferro tentou falar comigo de novo! Aquela voz de fantasma me disse que precisava de mais grãos brasilianos, mas quando tentei responder e mandar que se calasse, ela só emitiu um “beep” esquisito.
Ed sorriu de canto, observando o painel digital onde a interface da Galium Logih piscava em vermelho, indicando que o nível de insumos ainda não estava regularizado após o abastecimento manual da intrusa de 1798.
Sorrindo divertido, ele respondeu:
— É só a “Jenny”. Ela é um pouco... literal demais! Está programada apenas para gerenciar o estoque. “Jenny”! Pare de assustar a Livy! Hahaha!
Livy suspira, falando baixinho:
— É “Jenny”, a máquina de café... “Frank”, o aspirador de pó. E o “George”? Ah! É claro! Ainda tem o “George”…
Ed observou o teto em silêncio. Divertia-se ao notar que as preocupações atuais de sua protegida orbitavam dilemas domésticos banais, um contraste absurdo com as privações brutas que ela enfrentava há pouco mais de dois meses nas ruas da Inglaterra — embora, pela física exata do tempo, aquele inferno de lama tivesse ocorrido há quase três séculos. Para desviar o assunto e aliviar a tensão da garota, ele mudou o foco da conversa:
— Posso provar um biscoito, Livy? O aroma está excelente.
— Ainda está quente, mas claro que pode, meu amor — ela respondeu, retirando a assadeira com cuidado.
Ed mordeu o doce, saboreando a textura antes de emitir o veredicto:
— Hummm! Está divino. Você está se transformando em uma cozinheira fantástica.
— Bondade sua. A “Kelly”, aquela máquina de bater massa ali no canto, faz praticamente todo o trabalho pesado. Eu só preciso despejar os ingredientes e obedecer às instruções que surgem na tela... os méritos são todos dela. Parabéns, Kelly!
Ela falou batendo palmas leves e dando tapinhas afetuosos no topo do eletrodoméstico cromado. O aparelho, operando sob os protocolos cegos, manteve-se inerte, incapaz de processar tanto o carinho quanto a ironia velada dela, enquanto executava sua programação de resfriamento.
... Continua...
Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.
Imagem: colagens do Pinterest

