



CAPITULO 05
Conexão Viking
Volume Dois
HIERARQUIA GALIÔNICA
Eles se sentaram em um confortável sofá voltado para a vidraça que exibia todo o maquinário abaixo do escritório. Nenhum ruído escapava dos equipamentos operando no celeiro, um pavilhão com temperatura cirurgicamente controlada. Ed tomou as mãos dela entre as suas e a ouviu com paciência tibetana, compreendendo os conflitos existenciais que turbilhonavam na cabeça dela.
— Já se passaram dois meses, Ed. Eu já aprendi a ligar a água quente, a sair da frente do robô de limpeza e a não gritar de susto toda vez que a máquina de lavar começa a girar. Eu mereço saber o seu lado. Quem era a voz naquele aparelho no celeiro em Manchester? Aquela que insistiu que você me deixasse para trás para morrer? Por que ela me odeia tanto?
Fixando o olhar nos dela, respondeu:
— Você já está quase pronta. Ainda falta um longo caminho de aprendizado, mas é justo começar a lhe explicar como as coisas funcionam.
Ed procurou as palavras certas; a tarefa assemelhava-se a explicar a uma criança de três anos o funcionamento do controle remoto de uma SmartTV. Ela compreenderia o comando de ligar e desligar, mas demandaria tempo para absorver a função criptografada de cada botão.
— Ela é... uma engrenagem vital do meu trabalho — começou ele, medindo os termos.
— É uma interface de voz ligada à malha de dados que orienta minhas inserções em campo. Ela executa o cálculo de precisão tática para que eu cumpra a missão e retorne para o Rancho com segurança. Sem o suporte dela, eu ficaria cego e não conseguiria sobreviver.
— Você não sobreviveria sem ela?
Livy interrompeu, os olhos azuis faiscando enquanto ela se afastava no sofá.
— Está me dizendo que... a ama? Vai me trocar por dela?
O pânico reverberou na voz da garota. A ideia de existir outra mulher operando nas sombras do viajante a fazia temer estar em imensa desvantagem, traída por sua própria origem miserável nas ruas.
— Nãaaao! De forma alguma!
Ed soltou uma gargalhada genuína, puxando-a de volta.
— Você jamais correrá esse risco, meu amor. Eu me expressei mal... Ela não possui matéria física, carne ou sangue como nós. Aletheia é uma Unidade Galiônica de Inteligência Alfa-3, ou UGI-A3. Ou seja, uma Inteligência de Suporte Crítico de nível avançado. É uma mente sintética contida em um cristal fotônico.
Ao perceber que o jargão galiométrico havia congelado a expressão da garota em pura pane cognitiva, ele simplificou de imediato:
— Ela não é uma mulher de verdade, Livy. É uma projeção virtual de voz sem corpo que calcula minhas rotas. Sem o processamento dela operando em consonância com o meu Ressonador, o risco de me fragmentar ou ficar perdido para sempre no espaço-tempo é absurdo.
— Uma Inteligência de Suporte é... apenas uma voz sem corpo?
A percepção do equívoco a fez ruborizar de imediato. Ela cobriu o rosto com as mãos pequenas, tomada por uma vergonha genuína.
— Ai! Entendi... Que vergonha... Oh my God! Que gafe absurda!
— Sua boba — Ed zombou, puxando-a com firmeza pela cintura e colando seu corpo ao dela para transmitir a segurança necessária.
— Morrendo de ciúmes de um algoritmo de voz... considere isso como a maior prova de amor que você poderia me dar.
Livy aconchegou-se no abraço protetor, mas o instinto de sobrevivência que a manteve viva nas ruas falou mais alto. Sem deixar o momento de revelação escapar, ela ergueu o queixo e insistiu:
— Mas... e qual é o seu verdadeiro trabalho aqui? Você se apresentou em Rochdale como um simples mensageiro, mas agora compreendo que aquilo era um disfarce. Você opera como um espião bem treinado, não como um viajante comum... talvez seja um caçador. O que você realmente busca no ontem, Ed? Ouro? Poder absoluto?
— Você é bem esperta para quem tem apenas dois meses nesta linha temporal.
Ed admitiu, olhando para ela com orgulho.
— Eu sou realmente um caçador, Livy, mas de relíquias. O objetivo final do meu trabalho não é ficar rico, isso eu já sou, mas sim proteger a história, sou uma espécie de curador temporal.
— Nossa... Caçador de relíquias?
Livy sorriu, curiosa e orgulhosa do homem ao seu lado. Ed pegou o seu vítreotablet e buscou uma imagem na tela para tentar demonstrar o que queria dizer. Ele escolhia bem as palavras, evitando termos difíceis para não ofender o orgulho dela; sabia que a garota falava o inglês britânico arcaico e o romani, a língua cigana fluentemente, lia bem, mas escrever ainda era um desafio difícil, fruto da vida de abandono nas ruas. Simplificar a fala era a sua forma de apoiar o aprendizado dela sem parecer arrogante.
— Lembra que te falei das aeronaves que cruzavam rapidamente o céu no passado recente? Imagine o tempo desse jeito: o lugar onde o piloto senta é o presente. É reto, como navegar em um espelho d’água tranquilo. À frente está o futuro, que é só uma projeção que ninguém consegue tocar. Mas o passado... o passado é o caos. É a turbulência deixada pelo motor, um emaranhado de fios soltos. Sem um rumo certo e sem a ajuda da Aletheia para segurar as pontas, o salto seria uma viagem de ida com volta incerta.
Livy franziu a testa, concentrada nas luzes da tela antes de responder:
— Deixa eu ver se entendi! O amanhã não existe, o agora é o rio tranquilo, mas o ontem é a maresia batendo atrás do barco?
Ed sorriu e balançou a cabeça afirmativamente, era intrigante como a inteligência e a evolução dela era rápida. Ele se inclinou e deu um selinho carinhoso de reconhecimento pela pequena conquista.
— E o que você vai buscar lá? Que relíquias tão importantes são essas? — ela insistiu, sem desviar os olhos dele.
Ed tornou-se sério de imediato. Ele vê essa mudança no reflexo da vidraça e de imediato buscou quebrar qualquer traço de preocupação do rosto. Então um tom bem humorado o blindou temporariamente contra as engrenagens controladoras do mundo lá fora.
— Além de resgatar donzelas perspicazes das garras do destino? Eu resgato os fantasmas de objetos que seriam destruídos ou apagados da história.
Ele explica que essas relíquias são itens obscuros que se perderiam para sempre no fluxo do passado. A Unidade Suprema Galiônica, a USG-A1, identifica a relevância histórica e a coordenada molecular do artefato. Após o mapeamento do momento exato, ela autoriza a inserção e repassa as diretrizes para a Equipe de Coordenação Macro.
— O Líder Macro, nossa UGI-A2, supervisiona a logística do setor e delega os cálculos de precisão para a Aletheia, que passa a comandar a minha retaguarda em campo.
— Você cita tantos cargos… qual a sua função nisso tudo?
— Sou o Agente de Campo. O braço executor humano. Minha missão é ir ao passado e comprar ou... subtrair o objeto. O que, para ser honesto, acontece em noventa e nove por cento dos casos. Tudo para preservar a matéria do esquecimento definitivo.
— Subtrair? — Livy franziu o cenho, um sorriso de canto nascendo nos lábios.
— Como um ladrão de rua?
Ed abriu o seu característico sorriso irônico, fixando os olhos castelhanos nela:
— Somos bem mais parecidos do que você imagina, não acha? Você domina essa arte melhor do que ninguém. A diferença é que eu só estou roubando o que o tempo vai descartar.
Livy sentiu um arrepio térmico percorrer a espinha. Compreendeu, naquele instante, que eles compartilhavam muito mais do que a intimidade carnal da cama do Rancho; havia uma simetria marginal oculta entre o caçador do futuro e a órfã de Rochdale.
— E qual é a sua próxima caçada?
Sua curiosidade misturando-se a um pressentimento denso.
— O que o tempo está prestes a perder de forma tão trágica que exige o salto de um homem como você?
Ed limitou-se a puxá-la para mais perto, deixando a pergunta pairar no silêncio do celeiro enquanto a noite avançava no Colorado. Acalentada em seus braços, o agente pragmático não pôde deixar de analisar a velocidade assustadora com que aquela garota processava a realidade.
Não era apenas uma questão de esperteza das ruas; havia algo na biologia dela, uma plasticidade neural inexplicável que absorvia conceitos de física quântica e tecnologia contemporânea com uma rapidez incomum, quase como se o organismo dela estivesse despertando para uma frequência há muito adormecida.
Ele sabia que o tempo cobraria suas respostas, mas, por ora, bastava ver a pequena ladra de Rochdale começar a dominar o solo do futuro.
... Continua...
Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.
Imagem: colagens do Pinterest

