CAPITULO 06

Conexão Viking

Volume Dois

O BLUETOTH VIKING

Após esse instante demonstrando ternura genuína, EdiNuñez ativou a tela do vítreotablet. Um brasão real projetou-se em escala holográfica tridimensional, girando em trezentos e sessenta graus sobre o próprio eixo. Ao lado da heráldica moderna, brilhava uma legenda em língua nórdica antiga cercada por runas que, para Livy, não passavam de desenhos indecifráveis. Enfim, ele falou com determinação:

— Ainda não tenho todos os detalhes táticos do salto, mas este holograma exibe as armas oficiais da Casa Real de Christian X, o rei da Dinamarca em 1918.

Livy franziu o cenho, acompanhando o movimento da luz. Ligando os pontos entre os séculos X e XX, há uma relíquia desconhecida atribuída diretamente a Harald Blåtand Dente-Azul que precisa ser resgatada. Blåtand unificou a Dinamarca com a Noruega e introduziu o cristianismo no território viking um milênio atrás. Ele era filho do lendário rei Gorm, o Velho, e aqueles fatos históricos distantes operavam interligados por fios invisíveis que a tecnologia quântica tentava rastrear.

— Preciso extrair essa relíquia antes que desapareça em meio ao caos do fim da Grande Guerra, em 1918.

Livy ouvia atenta, assimilando a magnitude de um problema muito além do seu parco conhecimento.

— A Dinamarca manteve sua neutralidade rígida desde o início do conflito europeu.

Ed explicava mostrando no Mapa Mundi do passado recente os países e suas localizações geopolíticas no tabuleiro das nações, era seu jeito de mostrar fronteiras que ela pouco ou nada ouvira falar a respeito. Ela soube assim que no fim daquele ano, um acordo de paz, chamado de Armistício foi selado, porém, se esse artefato for roubado e cair nas mãos do Kaiser, a malha histórica será corrompida, os conflitos não cessarão, alterando todo o curso atual da história.

— Livy, se isso acontecer e a paz não for selada em novembro, as trincheiras da Europa Ocidental ficarão saturadas de sangue e desespero, as consequências não serão apenas geopolíticas, podem afetar linhagens futuras que não nascerão…

— Espere!… pode afetar você?

— Claro que sim… um bisavô meu que não foi pra guerra por ainda ser menor em 1918, poderia lutar anos depois pelos aliados e ser morto em combate, assim, em linha reta, eu não nasceria.

Livy ficou aterrorizada com essa simples ideia, mas Ed ainda não tinha concluído:

— Historicamente, em menos de 21 anos depois se iniciou o segundo grande conflito mundial… já imaginou se elas fossem uma só, sem esse espaço temporal entre elas? A humanidade poderia chegar às vias de extinção.

Vendo que extrapolou, ele trouxe a explanação de volta para o tema original, e com tom sombrio e impositivo, ele concluiu:

— Se eu falhar, o reino dinamarquês será tragado para o epicentro da guerra e o efeito borboleta resultante destruirá o futuro de forma catastrófica.

— Nossa, Ed... Por que tanta guerra? Tanto sangue derramado? — Livy questiona, mantendo os olhos fixos nas runas giratórias.

— A trajetória humana sempre foi talhada a ferro e fogo, Livy. Naquela região da Europa, é necessário que a história siga seu curso exato para que a nova união dinástica entre a Dinamarca e a Islândia se estabeleça antes que o ano termine.

Ed fez uma pausa breve, atualizando os gráficos em tempo real no vítreotablet.

— A única informação que recebemos da central de inteligência é que essa relíquia é um artefato ancestral, não há nenhum registro visual de seu formato ou um padrão molecular que o identifique nos arquivos.

Uma lenda antiga afirma que o soberano que empunhar esse objeto mitológico em batalha, jamais será derrotado. Imagine um artefato com esse peso psicológico nas mãos de divisões alemãs encurraladas, conhecidas por adotar misticismos pagãos como dopamina... O moral daquelas tropas subiria a níveis perigosos, estendendo o conflito com a adesão do feroz povo nórdico. Homens desesperados e entrincheirados, movidos por um fanatismo revivido por relíquias rúnicas, marchariam cegamente em direção à morte, transformando o continente em um cemitério definitivo e impedindo o próprio surgimento do mundo como o conhecemos.

— E como ela vai desaparecer?

Livy adorava histórias, já inteiramente imersa na gravidade de um relato anômalo. Para ela, aquilo era futuro; para ele, fatos consolidados do passado.

— A história oficial não registra os detalhes, mas houve um incidente que destruiu a residência do duque que guardava a peça. — Ed explicou, mantendo o tom firme.

— É exatamente nesse ponto cego da historiografia que a relíquia desaparece dos registros formais da humanidade. Eu preciso chegar exatamente nesse vácuo cronológico para garantir que, se ela não apenas mito, suma dos olhos dos homens e venha direto para o nosso cofre de segurança galiônica.

Ed sorriu de canto, apontando com o dedo para o símbolo rúnico flutuando no visor.

— E por falar em unificação, o feito histórico desse rei viking inspirou, dez séculos depois, a tecnologia sem fio mais comum que existia antes do Evento 33.

Ed viaja mentalmente para divagar sobre o antigo Bluetooth, o dispositivo de curto alcance que conectava a infinidade de aparelhos de silício mortos no colapso global — uma homenagem direta e intencional a Harald Blåtand Dente-Azul. Até o logotipo da tecnologia era a junção geométrica exata das runas nórdicas Hagall (ᚼ) e Bjarkan (ᛒ), representando as iniciais H e B do soberano. Era a prova definbitiva que os engenheiros do século XXI buscavam no passado a inspiração para os protocolos que moldaram o cotidiano digital, sem imaginar que aquela mesma infraestrutura ruiria décadas depois.

— O passado nunca morre, Livy; ele apenas se transforma em um novo protocolo e renasce.

Livy observava o ambiente ao redor, sentindo em todos os seus sentidos o pulsar invisível e silencioso da tecnologia galiônica. Ela ainda não compreendia que esse mesmo progresso tecnológico que a deslumbrava também servia como um sistema de freios e contra-pesos asfixiantes. O conforto oferecido carregava o preço implícito de um erro irreversível — deixar o controle absoluto da humanidade nas mãos da malha de silício e de sistemas automatizados — custara a vida de sete bilhões de almas. O Evento 33 permanecia como uma cicatriz aberta e purulenta na memória dos sobreviventes.

EdiNuñez a vigiava em silêncio, lendo as microexpressões em seu rosto. Ele sempre operava como um lobo solitário, uma escolha tática e calculada para o caso de sofrer um revés fatal no ontem: se ele desaparecesse no passado, não haveria mentes no presente rastreando ou sofrendo pelo seu não retorno. Sua mente operava melhor quando desimpedida de laços. Agora havia uma âncora viva ali, e o agente ainda não tinha certeza se esse elo emocional iria ou não prejudicá-lo, sabotando o seu foco absoluto e sua precisão cirúrgica durante as inserções temporais.

Existia também outro motivo para o seu isolamento, este de ordem puramente social e cultural: a solidão na segunda metade do século XXI era, para muitos, o legado sombrio e a herança maldita das primeiras três décadas. Foi um período no qual os relacionamentos conjugais se degradaram por completo, os laços afetivos foram banalizados nas redes e a falta de lealdade entre os casais tornou-se uma epidemia, destruindo o conceito de família antes mesmo de as máquinas pararem.

A população da Terra havia sido reduzida drasticamente, com regiões inteiras e grandes capitais mundiais tornadas inabitáveis, zonas mortas devido à radiação nuclear das ogivas lançadas pelos governos contra seu próprio povo. Foi uma medida desesperada, um último recurso extremo para aniquilar as hordas bárbaras famintas e ensandecidas que massacravam os civis e as forças de segurança no corpo a corpo dentro dos centros urbanos colapsados. O preço para salvar uma fração da espécie fora queimar na própria carne.

Para Ed, viver só era um mal necessário, uma blindagem indispensável para a segurança de suas atividades ultrassecretas e saltos cronológicos. Porém, Livy adicionara aquela variável emocional altamente perigosa à sua rigorosa equação matemática.

Ter alguém como ela o esperando no Rancho, dividindo o silêncio daquele vale congelado, era um luxo que o oficial castelhano nunca se permitira usufruir ao longo de sua carreira militar... um risco existencial profundo que, naquele exato instante, ele percebeu que estava disposto a correr.

... Continua...

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

Imagem: colagens do Pinterest