CAPITULO 07

Conexão Viking

Volume Dois

PONTOS CEGOS

Atualmente, sob o controle rígido de um Governo Tecnocrata implacável, a população viu-se desprovida do antigo poder de compra de bens materiais diretos. Itens essenciais, como roupas, moradias padronizadas, educação programada e tratamentos médicos avançados, são integralmente providos e racionados pela engrenagem da Tecnocracia.

Todos os cidadãos, indistintamente, recebem esses benefícios de forma igualitária — desde os indivíduos incapazes por motivos de idade avançada ou saúde debilitada até aqueles que se recusam à contrapartida de poucas horas mensais de serviços burocráticos obrigatórios. O Estado transformou-se no provedor supremo, eliminando a miséria ao mesmo tempo em que pulverizou a individualidade.

A cota padrão de mantimentos calóricos é rigidamente garantida para a subsistência de cada indivíduo, mas a relevância e a complexidade da função laboral exercida podem render gratificações adicionais valiosas em Créditos Virtuais, pois eles não possuem nenhum tipo de aporte ou lastro físico. Esses créditos acumulados podem ser trocados por luxos extras e supérfluos através dos Catálogos Virtuais integrados da Unidade, disponíveis em postos urbanos automatizados que funcionam 24 horas por dia, ou por comodidades tecnológicas específicas sob encomenda direta. A moeda física virou um fantasma do passado silítico, restando apenas dígitos flutuando em telas de fósforo fotônico.

As antigas e caóticas metrópoles do século XXI foram completamente abandonadas e isoladas, substituídas por cidades planejadas de forma simétrica para populações bem menores, facilitando o controle absoluto e a vigilância de dados. Ninguém passa fome ou frio sob o teto galiônico, desde que se mantenha em absoluta submissão psicológica e civil ao sistema vigente.

O controle de natalidade rigoroso é, sem dúvida, o ponto mais sensível e cruel dessa engrenagem social: casais saudáveis aguardam anos em extensas filas de espera digitais para receberem a autorização biológica para gestar. Para a vida florescer e a fila andar, a matemática estatal exige que alguém morra primeiro, mantendo o equilíbrio populacional fixo nos quinhentos milhões de habitantes permitidos.

O Rancho Nevado permanece como um dos raros e preciosos pontos cegos sobreviventes no perímetro mapeado do ‘Mundo Livre’. Há segredos ocultos ali que escapam até mesmo do conhecimento do próprio agente do tempo; por uma questão elementar de segurança pessoal, saber demais naquele novo mundo pode torná-lo um alvo preferencial de eliminação. Ele acredita que esse benefício de isolamento foi concedido ao seu pai, Santiago Nuñez, puramente por ele ter sido o idealizador genial da energia livre que torna possível o funcionamento da Galiometria.

Como o local já produzia e processava bens de consumo lácteos antes mesmo do Evento 33, o governo militar estendeu o privilégio a ele por ser o herdeiro legítimo daquela terra. Assim, o Rancho Nevado recebeu o status especial de Estado Federado autônomo, tornando-se um santuário livre de embargos econômicos e, principalmente, blindado contra a vigilância ostensiva e asfixiante da Tecnoliderança. Embora ocorra uma rigorosa inspeção sanitária anual por parte dos fiscais do governo, nenhum agente do Estado ousa cruzar o portão de ferro sem a autorização prévia e expressa do seu administrador.

Livy, alheia à complexidade sufocante daquela política futurista, refletia em silêncio sobre a mudança abissal operada em sua própria existência — uma distância assustadora que já não se media em milhas terrestres, mas em séculos de poeira, sangue e progresso técnico.

— “Valha-me Deus, eu amo esse homem!” — pensava ela, com os olhos fixos nele, observando-o em silêncio enquanto ele consertava alguns aparelhos eletrônicos.

— “Ele arriscou tudo por mim, uma reles rata de rua que não valia um 'farthing ou um halfpennies' falso furado. E quando me confessou que o ganha-pão dele era ‘surrupiar troços velhos’... Nossa, minha alma até sossegou! Foi o mesmo que achar um parceiro de ralo, um igual.”

Livy sorria sozinha com a ironia explícita do destino. Ele roubava o esquecimento do ontem para preservar a memória do amanhã; ela roubava o pão das feiras georgianas apenas para preservar a própria vida no dia seguinte. As razões históricas diferiam de forma brutal, mas o risco de morte era o elo inquebrável que os unia. Para ela, Ed não era um santo intocável, era um homem real — e sua beleza e virilidade imponente o tornavam, aos seus olhos apaixonados, um deus grego esculpido para a sua salvação.

O casal vivia em um ritmo de espera; trinta dias haviam se passado desde o anúncio da missão à Dinamarca, e Aletheia ainda não sinalizara o início do salto. Para Livy, cada dia de atraso era uma dádiva divina: as noites frescas e congelantes no Colorado eram aquecidas por interações calientes que não perderam a intensidade desde seu primeiro dia naquela era tecnológica.

— “Sei que falo errado, que sou uma matuta sem conhecimento perto do que ele já viveu na vida. Tudo que sabia foi o que minha mãe me ensinou; podia sonhar com a ‘Dame School’, mas jamais me aceitariam, mesmo em uma ‘Charlity’ Anglicana ou na ‘Sunday School’ para pobres… mal sei ler, mas ele tem me ensinado muita coisa nova com toda a paciência do mundo. Isso é o que não me deixa ficar destrambelhada do juízo no meio desse monte de máquinas falantes. O Ed está sempre aqui do meu lado, me motivando... E jurou por Deus que não vai mais se ‘enredar’ com nenhuma ‘sirigaita’ ou rameira do passado” — pensou, sentindo um estalo de ciúmes e orgulho inflar o peito.

O amor, contudo, é o mais perigoso dos pontos cegos em qualquer equação determinista. Em um mundo onde a Tecnocracia tabulou a existência, pesou os afetos e transformou o sopro da vida em uma fila de espera milimetricamente vigiada pela frieza das máquinas, a simetria oculta entre o caçador e sua caça operava como uma anomalia viva. Eles eram duas forças cósmicas orbitando à margem do sistema, sobrevivendo sob a fresta de um santuário livre que o Governo Central tolerava apenas por conveniência logística.

Enquanto os relógios galiônicos de 2075 computavam o silêncio pesado que antecede o próximo salto fissural, os dois corpos seguiam em uma fusão contínua na penumbra do Rancho Nevado, provando que a memória e a vida, quando talhadas pelo risco e pelo perigo de morte, sempre encontrarão um ‘labirinto secreto’ para escapar do controle absoluto e reescrever o destino.

Livy estava próxima à lareira, sentada no chão de pedra e inteiramente mergulhada na leitura de um livro impresso antes dos anos caóticos da Onda de Khaos — um romance escrito por um autor chamado Edinelson Nunes, um homônimo quase exato de seu amado. Ed lhe explicara que fora justamente esse livro que fizera seu pai, Santiago, batizá-lo de Edinelson.

Sua mãe amava a sonoridade do nome daquele autor que vivera no Brasil antes de se tornar um Estado Federado, e a trama que mesclava aventura, fantasia, romance e naves de propulsão antigravidade a fisgara com uma paixão que a fazia sonhar acordada. O amor indestrutível entre os personagens, Edden e Linnxx, agora a inspirava a lutar pelo seu próprio espaço ali.

— “Seria possível um amor durar para sempre, igual tá escrito neste papel?” — sussurrou para si mesma, passando os dedos calejados pelas páginas amareladas.

Para ela, o relacionamento deles tinha a brevidade de três meses; mas, como nascera no rigoroso dezembro de 1780, ela completou duzentos e noventa e cinco anos de existência antes de sua chegada no Colorado, caso o vácuo do salto temporal fosse ignorado pelo observador de fora.

Um paradoxo bizarro e assustador que sua mente tentava assimilar a duras penas, enquanto Ed calibrava o seu comunicador quântico que fora danificado na viagem à Inglaterra georgiana. Subitamente, com um estalo seco, ela fechou as páginas do volume e o arrancou de seu estado de concentração com uma pergunta direta, disparada com a agilidade de um bote:

— Você já falou o nome dela?

— O nome de quem?

Ed respondeu sem desviar a atenção, da grande lupa e mantendo os dedos firmes nos ajustes dos feixes termais do visor digital.

— Daquela sua amiguinha, a tal da ‘Inteligência irracional’... A voz de fantasma que falou no celeiro de Manchester que eu não merecia ser salva da morte!

Livy, irônica e afiada ao extremo, parecia disposta a procurar pelo em ovo apenas para iniciar uma guerra doméstica e marcar seu território no Rancho. Ed interrompeu os ajustes do visor no mesmo instante e abriu um sorriso de canto, sabendo exatamente com quem estava lidando.

... Continua...

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

Imagem: colagens do Pinterest