CAPITULO 08

Conexão Viking

Volume Dois

ANOMALIA TEMPORAL

Ele recordou-se dos tempos em que atuava como um operador SEAL, na época em que o mundo ainda sangrava nos conflitos rústicos anteriores ao gálio, quando ouvia dos companheiros de farda que as baixinhas eram sempre as mais teimosas e encrenqueiras... E, voilà, a teoria provava-se verdadeira diante de seus olhos, com uma precisão assustadora. O que viria a seguir?

— Sim, meu amorzinho, eu lhe disse quando expliquei a estrutura do Governo Central há um mês, lembra-se? Ela se chama Aletheia.

— Ah! Eu havia esquecido... Acho que nem prestei atenção na época — desdenhou ela, erguendo o queixo e fingindo um desinteresse que não possuía.

— Então por que o interesse repentino agora? Já lhe expliquei que ela funciona como uma Sinapse de Processamento Crítico, uma malha invisível de dados. Ciúmes de um algoritmo de voz outra vez, Livy?

— Claro que não! Jamais! — mentiu, sentindo o rosto ruborizar de imediato sob o olhar clínico do castelhano.

— Só queria compreender o motivo dela me odiar tanto. Aqui neste livro que estou lendo, a Linnxx era amiga íntima do Commander, o Intelecto Sináptico dos Orèth’zarins, o povo dela. Por que sua ‘amiguinha íntima’ eletrônica me quer morta? Não seria ela quem está morrendo de ciúmes?

Ed virou-se completamente em direção a ela, deixando de lado os ajustes e decidido a travar aquela conversa de forma definitiva, eliminando os fantasmas que rondavam a mente da jovem.

— Livy, entenda: meu impulso humano em trazer você foi, para as diretrizes lógicas dela, um risco imensurável que gerou uma anomalia paradoxal — Ed explicou, modulando a voz e buscando o tom mais didático possível para que ela absorvesse a gravidade do cenário.

— Você simplesmente não deveria ter sobrevivido após sua linha cronológica original se findar em 1798. Não há explicação matemática na física quântica convencional que justifique o seu fenômeno de permanência no futuro, e a Aletheia lida apenas com lógica pura, equações exatas e as regras rígidas.

Ele explicou pacientemente que cada ação não calculada ou impulso movido pela emoção no passado quebra a lógica linear do tempo. Ele admitiu que fazia isso frequentemente em suas missões de infiltração, e que Aletheia precisava trabalhar dobrado, precisando consumir grande quantidade de galy— a unidade de medida que substituiu o byte, o antigo sistema colapsado em 2033— tudo para processar os desvios e conter as consequências catastróficas que suas intervenções provocavam no tecido do tempo.

— Livy, isso não é algo pessoal da parte dela, é apenas o trabalho frio de uma inteligência galiônica: apagar os registros e as cicatrizes das falhas que causei. Você virou uma exceção viva e perigosa na malha temporal unicamente a meu pedido.

— Tá bem... Mas qual é a sua real relação com ela? Ela é sua... patroa? — A baixinha insistia, semicerrando os olhos turquesa-escuros e desconfiados, ainda procurando de forma obstinada algum motivo para atear fogo no circo.

— Somos uma dupla operacional, Livy. A Aletheia é uma unidade quase infalível, meu único elo seguro entre o quântico e o tangível, entre o ontem e o hoje. Cabe a ela processar os cálculos e repassar a janela exata da minha chegada e partida nas linhas temporais. E ela nunca errou... Até agora.

Surpreso com a rapidez com que a mente ágil da garota assimilava conceitos tecnológicos tão complexos e abstratos, Ed detalhou a mecânica brutal e invisível do salto:

— O passado é o caos puro, Livy. É um terreno instável e hostil. Ela trabalha no fio da navalha, perder o prazo do salto de retorno por um único segundo, a malha cronológica se fecha e ficarei preso por uma década inteira no passado, até que ocorra um novo alinhamento matemático para o resgate de retorno.

Ela arregalou os olhos azuis, assimilando concentrada cada palavra que saía da boca do agente. Ed continuou:

— A fenda temporal se abre por apenas uma semana, e este é o tempo exato que tenho para realizar a infiltração e cumprir a missão lá no passado.

Buscando usar palavras simples e sem rebusques para que ela tivesse plena compreensão daqueles conceitos tão abstratos, ele explicou a dinâmica complexa da Onda Harmônica Fissural. Detalhou como um receptor de grande porte posicionado aqui no presente emite uma frequência quântica de gálio que faz par simétrico com o Ressonador implantado no passado. O sistema usa o rastro molecular deixado no vácuo subatômico durante o salto de ida para se manter conectado ao longo dos séculos. É como se existisse um cabo de aço invisível esticado através do tempo, cruzando eras de poeira para permitir a comunicação rádio-quântica e o fluxo contínuo de dados entre os dois polos.

— E se esse cabo invisível se quebrar e tu perder a chance de voltar para casa? — a baixinha indagou, a voz urgente e carregada de angústia.

— Se esse cabo se romper por qualquer instabilidade na malha, a onda harmônica que alimenta o aparelho ressonador e o cronovísion se perde por completo, transformando ambos em sucata e tecnologia inútil. O portal de dobra desaba. Ficarei incomunicável por dez anos inteiros lá atrás, enquanto aqui no Rancho Nevado se passarão apenas três semanas.

A voz de Livy tremeu pela primeira vez desde que a conversa começara, confrontada com o perigo real e a crueza da profissão dele.

— Dez anos lá na poeira equivalem a três semanas aqui no rancho? Como diabos isso é possível?

— É a Galiometria, Livy. O tempo não é uma constante; ele flui em outro ritmo em densidades quânticas diferentes. Cada vinte e quatro horas que passo operando no passado corresponde a exatos oito minutos e trinta e quatro segundos aqui na nossa linha atual. Por isso, as missões mais longas duram no máximo uma hora aqui no presente: o equivalente exato de uma semana inteira no início do século XX.

— Jesus... Nunca deixe isso acontecer, Ed! Ficar três semanas sem notícias suas, largado em um tempo que te pertence, seria impossível para mim!

— E como você acha que seria para mim, que viveria dez anos isolado, esperando pelo realinhamento? — rebateu ele, encarando-a com seriedade.

Ed viu a expressão no rosto dela mudar imediatamente. As engrenagens psicológicas da jovem finalmente começavam a recalibrar os conceitos em relação a Aletheia, compreendendo o peso esmagador da inteligência virtual que comandava a retaguarda e sustentava a vida do agente no ontem. Aletheia não era uma rival; era o coração da máquina que impedia o Ed de virar um fantasma na história.

— Não quero nem pensar em tamanha desgraça! — Livy empalideceu, sacudindo a cabeça para afastar o vislumbre aterrorizante daquela solidão.

— Vamos mudar de assunto que o meu juízo já está dando nós. E quanto a essa relíquia viking na Dinamarca, como estão os preparativos?

Ed suspirou pesado, fechando as travas dos sensores do aparelho que revisava com ferramentas manuais.

— A missão de 1918... É a última peça para fechar o cronograma deste semestre. O valor histórico daquele artefato de Harald Dente-Azul é incalculável…

— … E o risco também — completou ela, em um murmúrio preocupado.

... Continua...

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

Imagem: colagens do Pinterest