



CAPITULO 09
Conexão Viking
Volume Dois
SANGREAL
O casal retornou caminhando de mãos dadas à residência principal. O ar puro e climatizado dos jardins do Rancho Nevado parecia um luxo irreal para quem carregara os pulmões com a fuligem espessa das chaminés de Lancashire. A luz suave das luminárias de gálio embutidas na relva cortava a penumbra, enquanto Livy apertava os dedos quentes de Ed, buscando uma âncora tátil para não afundar em suas próprias incertezas.
Mergulhada em pensamentos, a pequena tentava costurar os retalhos daquela nova realidade. Para quem passara a vida barganhando a sobrevivência por um punhado de moedas de cobre na lama congelada da Inglaterra do século XVIII, a revelação de que o tempo operava como um oceano de ritmos descompassados era um golpe violento em sua sanidade.
Em sua mente, o amado não cruzava apenas distâncias geográficas; ele cavalgava através de abismos invisíveis onde uma semana de ausência no presente poderia se transformar, em caso de falha, em uma eternidade de dez anos de isolamento no passado. O medo que antes sentia do sistema legal e dos julgadores de Rochdale era agora insignificante diante do pavor quântico de vê-lo desaparecer nas intrincadas engrenagens da cronologia, deixando-a desamparada entre fantasmas de gálio e vozes sem corpo como a de Aletheia.
Ela sabia que precisava dominar aquelas palavras difíceis e entender o chão onde pisava, pois, no tabuleiro bizarro do viajante, o amor deixara de ser um refúgio romântico para se transformar no risco mais letal de sua existência.
Tentando retomar a conversa, ela buscou se recompor ao perceber que os perigos da profissão dele iam muito além de lâminas ou projéteis físicos.
— Por que suspiraste, meu amor? Sinto que algo a mais tu preocupa!
— É a proximidade do front da Grande Guerra na fronteira com a Alemanha — explicou Ed, ajustando o passo ao dela.
— O risco em 1918 é altíssimo. A Europa está em frangalhos, mergulhada em uma carnificina mecânica, e preciso me infiltrar na residência do duque Phillip MacSterling, um primo do rei George V e aliado estratégico da Coroa Britânica. Ele é casado com a duquesa Astrid de Beck-Glücksburg, prima da princesa Thyra de Sonderburg-Glücksburg, irmã do rei Christian X e longe da linha de sucessão à Casa de Nordland. Se eu não agir rápido, o rastro da relíquia desaparecerá em meio ao caos dos bombardeios. Eles mantêm o artefato nórdico como uma reles antiguidade de família, sem imaginar que a peça carrega uma frequência de gálio dormente que não pode cair em mãos erradas.
— Rei Christian X? Também ouvi outro nome... esse tal George V... Ele tem o mesmo nome daquele robô chato que me olha torto no laboratório!
— Hahaha! Não, meu anjo, mas você tem razão em se confundir. É uma verdadeira salada mista dinástica — Ed sorriu pacientemente, explanando o teor de sua pesquisa em preparação para a missão.
— O rei George V da Inglaterra e o rei Christian X da Dinamarca são primos de primeiro grau; um dos irmãos do rei George, o pai do duque Phillip, era casado com uma duquesa da Escócia. A rainha Alexandra, mãe do rei britânico, era uma princesa dinamarquesa. Sempre foi assim na história antiga: para manter as alianças firmes e o sangue protegido, os casamentos entre as famílias reais eram constantes. É uma teia onde política, poder e linhagem se misturam.
E seguiu falando, agora de sua própria ascendência:
— E não vão longe os exemplos, Livy. Meu avô Mateo Nuñez se casou com uma legítima Alba; minha avó Isabella era, segundo meu pai, uma verdadeira Turrón de Jijona, e meu pai, Santiago, atravessou o Atlântico para buscar minha mãe, Alejandra, direto da aristocracia ítalo-espanhola da Casa dos Bourbons de Calábria. Eram arranjos diplomáticos para a manutenção do sangue, mas onde o amor acabou florescendo de verdade.
Livy entristeceu o olhar, sentindo o peso esmagador de não ter um sobrenome pomposo, uma linhagem de nobres ou um reino para oferecer em troca daquele amor de alta estirpe. Ed percebeu o abatimento dela no mesmo instante, parando a caminhada sob o pórtico da casa.
— Livy, olhe para mim. Para o Mundo Livre Galiônico de 2075, títulos do passado não valem absolutamente nada. E para mim, a sua nobreza reside na sua força, na dignidade de ter se preservado e sobrevivido intacta a um ambiente tão hostil quanto a lama de Lancashire. O sangue dos Bourbons ou dos Alba nas minhas veias é apenas memória; o que pulsa em você é a vida pura, crua e verdadeira. Vou me casar com você, independente do sangue que corre em suas veias; isso não afeta ou molda minhas decisões. Você existe, é real e é toda minha. É só isso que me importa!
— Tu vai mesmo se casar comigo?
Ele, que apenas segurava suas mãos, puxou-a para um abraço apertado contra o peito, sentindo o coração da pequena disparar sob o tecido fino do vestido.
— É claro que vou, Livy. Porém, há empecilhos burocráticos e temporais nesta linha atual que nos impedem por enquanto. Mas eu tenho como contornar cada um deles; logo lhe explicarei o meu plano. Confia em mim?
— É claro que confio! Sem nenhuma dúvida em meu ser — ela respondeu com firmeza, entrelaçando seus dedos nos dele.
— Mas então, voltando para nossa conversa: por que esse tal artefato viking vai precisar ser resgatado por um herói lindo e sarado como você? O que ele tem de tão especial além de poeira e mofo?
— Porque é uma peça de valor inestimável e um artefato crítico para a estabilidade do tempo — Ed respondeu, conduzindo-a para o interior do salão.
— Vou lhe explicar: ela esteve em posse da Coroa Britânica por séculos como parte de antigos acordos bilaterais e foi devolvida recentemente à Dinamarca como presente de núpcias para o duque Phillip com a princesa Astrid.
Livy soube que, além da lenda de que o objeto dava poderes sobre-humanos a quem o ostentasse em batalha, havia um peso dinástico antigo e com um poder psicológico avassalador. Esse relicário dormente, provavelmente grafado com runas ancestrais dos tempos do lendário Harald Dente-Azul, representava a própria legitimidade da coroa. Se o artefato caísse nas mãos de um inimigo — no caso, os agentes do Kaiser alemão —, a linhagem real perderia o direito divino ao trono aos olhos do povo.
Ed selou sua explanação com a maestria de quem conhece profundamente as nuances e armadilhas da história humana:
— O povo respeitava as tradições e era extremamente supersticioso naquela época. Se o Kaiser colocar as mãos no objeto e o exibir em Berlim como troféu, o moral da corte dinamarquesa colapsará e haverá uma revolução interna, facilitando a ocupação alemã no Báltico. Em tempos de guerra, mitos não são apenas contos; são armas de precisão que destroem a honra e a coesão de uma nação inteira. Espiões alemães já estão infiltrados nas sombras da residência oficial dos Beck-Glücksburg, a Silent House.
— Se eu não chegar antes deles, a linhagem de mil anos da Dinamarca será quebrada e o mapa da Europa será alterado irreversivelmente. Tenho que pegar a peça antes que a história seja reduzida a escombros. Ficou claro?
— Wow! — Livy não conteve o espanto. Tendo vindo de uma época ainda impregnada de misticismo, ela entendia o peso esmagador daquela herança.
O painel quântico do vítreotablet sobre a mesa central de repente ganhou vida, projetando um mapa holográfico tridimensional da Europa no fim da segunda década do século XX.
O feixe luminoso cortava o ar com detalhes gráficos, mostrando linhas de trincheiras, redes elétricas primitivas e o relevo congelado da Dinamarca. Um ponto vermelho pulsava de forma intermitente sobre uma vasta propriedade aristocrática envolta pela névoa do Mar do Norte, na capital, Copenhague.
— … E o risco também — completou ela, em um murmúrio preocupado.
... Continua...
Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.
Imagem: colagens do Pinterest



