CAPITULO 11

Conexão Viking

Volume Dois

SALTO EM FALSO NO ESCURO

Ed pegou Livy pela mão e adentraram a biblioteca. Ele fechou a porta e acionou um mecanismo oculto no entalhe de uma Flor de Liz na estante. Um estalo metálico ecoou, e a biblioteca revelou seu segredo: um cilindro metálico de transporte surgiu atrás da estante, que deslizou para o lado. Ele espalmou sua mão direita no metal frio; o sensor biométrico reconheceu a identidade de seu portador e a porta girou, revelando o interior.

O espaço era exíguo, cabendo apenas uma pessoa de forma confortável, o que os obrigava a uma proximidade absoluta de corpos. A porta se fechou e eles desceram em silêncio, tão grudados que podiam sentir a respiração e o calor um do outro. Olhos fixos: Ed confiante, Livy apreensiva, até que a porta se abriu no laboratório subterrâneo e eles saíram, unidos em um beijo que selava a promessa de retorno.

Ao entrarem na câmara de imersão, Livy foi orientada a sentar-se diante da Mesa de Ressonância Temporal. Na parede, os gráficos do Cronovísor Retrógrado brilhavam com dados que, embora alienígenas para ela, transmitiam a magnitude da operação. Ed iniciou o ritual de salto.

— Este visor ao lado, Livy, é o Painel de Monitoramento de Atividade Corpórea, que mostra meu organismo em tempo real após o salto. Cada sensação, cada batida do meu coração no passado, será traduzida aqui. Se eu me machucar, toque no local indicado e o modelo virtual ampliará o ponto exato da dor, a gravidade e o que estou fazendo para contornar o problema.

Ed deu ênfase a um aviso crítico de segurança: Livy jamais deveria tocar na Matriz Tátil de Convergência, o grande visor da parede com o Painel Tático Operacional, o organismo vivo da operação. A Matriz operava em simbiose neural com o agente em campo; qualquer ação deliberada ou toque inadvertido em seus gráficos quânticos enviaria impulsos fantasmas de falsa telemetria direto para o córtex do Ed, fazendo-o cometer erros de cálculo ou tomar decisões táticas equivocadas no passado, achando tratar-se de comandos legítimos de sua líder.

Aletheia estaria onipresente dentro do bunker junto a Livy, monitorando a estrutura molecular daquela sala que operava como um núcleo síncronon da missão. Por fim, ele fez um apelo quase impensável para o orgulho da baixinha:

— Confie nela, Livy. Ela sabe perfeitamente o quanto você se tornou valiosa para a manutenção da minha sanidade.

O silêncio da câmara blindada foi quebrado de repente. Aletheia, que até então estava offline, manifestou-se pelas saídas de som:

— Pode ficar tranquilo, agente EdiNuñez. Nós vamos nos entender... Certo, Livy Emanuelle?

Livy cruzou os braços e encarou o teto, sem se deixar intimidar pela voz sintetizada:

— Com certeza! Pode ir tranquilo, Ed. E, por favor, Aletheia... Me explique depois a origem de seu nome. É que “Aletheia” me soa grega demais para os meus ouvidos... Os ciganos com quem eu viajava tinham uma rixa com esse povo; acho que era porque dificultavam nosso acesso às ilhas gregas. Isso ficou marcado em mim.

— Vamos, sim, conversar sobre isso, Livy, mas agora o foco é no lançamento temporal. Livy, posicione em seu rosto o protetor ocular. Agente EdiNuñez, trave o acoplamento magnético do seu visor facial e prepare o acionamento quântico do Ressonador ao meu comando.

Ed alertou sua chefe para não bombardear Livy com palavras técnicas demais, pois seu aprendizado ainda estava no começo e forçar um vocabulário rebuscado não ajudaria no desenvolvimento dela. Aletheia assentiu diante da urgência do momento, mudando o tom da iluminação de forma imediata.

— Iniciando a contagem do Cronômetro Fissural. Sessenta segundos para a ejeção quântica, agente EdiNuñez.

O ar dentro do abrigo tornou-se asfixiante de súbito, denso como chumbo líquido.

A voz mecânica e impositiva de Aletheia obliterou qualquer resquício de intimidade doméstica, enquanto finos feixes de laser moldavam os números da contagem regressiva em um verde neon agressivo: 59… 58… 57… 56… Cada segundo parecia arrancar uma gota de oxigênio do recinto. O painel atingiu a metade do contador e uma voz sintética masculina ressoou:

— Trinta segundos…

O Cronômetro Fissural começou sua contagem regressiva em sincronicidade com o pulsar das luzes do ambiente. O ar na câmara de imersão tornou-se pesado e carregado de eletricidade estática, fazendo os pelos do braço de Livy se eriçarem. As luzes não apenas piscavam; elas gritavam em escarlate. Ed testou o Ressonador:

— “Gravando para registro oficial. Iniciando salto. Destino: Copenhague, Dinamarca; ano: 1918; mês: abril. Marco temporal de chegada: 19h15”.

Livy deu um sobressalto. Uma mistura de excitação e desespero a invadiu; a iminente partida, por alguma razão desconhecida, deu-lhe um aperto na alma — algo não estava certo, e seu inconsciente não sabia explicar.

— Quinze segundos…

Um zumbido de distorção temporal preencheu a sala, fazendo o ar vibrar.

— Dez segundos…

O gerador de fluxo do subsolo começou a subir de oitava, emitindo uma vibração subatômica que fazia o piso de metal estalar contra as solas das botas de Ed. Um redemoinho gravitacional começou a se formar em torno do viajante temporal, envolvendo seu corpo em uma densa aura de luz fria.

Ed ajustou o Cronovísion Facial e olhou uma última vez para Livy. O tempo real estava prestes a rasgar-se diante deles. Ele sorriu, deu uma piscadela e soltou um beijo estalado com a mão na boca, inaudível pelo ruído surdo na sala — um movimento natural dele que, no entanto, não a tranquilizou.

O alto-falante do painel executou a sequência final do salto:

— Cinco... quatro... três... dois... um... Salto realizado.

O clarão cessou de imediato. A câmara de imersão estava vazia, restando apenas o eco do silêncio no bunker subterrâneo. Mas, em seguida, o Painel de Monitoramento de Atividade Corpórea explodiu em um aviso: um símbolo escarlate triangular com uma exclamação no centro pulsava em fundo preto, e uma voz estridente gritou um alarme que encheu os ouvidos de Livy:

— ANOMALIA DETECTADA! — ANOMALIA! — ANOMALIA! — LOCAL DE POUSO NÃO CONFIRMADO — INVASÃO DE ESPAÇO-TEMPO NÃO PROGRAMADA — AGUARDANDO RESPOSTA PARA NOVA DIRETRIZ!

— Aletheia! O que está acontecendo? Onde ele está?

As informações que chegavam eram desencontradas ou incorretas. O ponto de chegada estava comprometido por um... DISTÚRBIO DE DILATAÇÃO FRACTAL.

— Recebi uma imagem fragmentada de detritos físicos e este áudio de um segundo. Ouça... Parecem bombas, tiros e um grito humano.

O tom analítico de Aletheia destoava do pânico explícito nas feições de Livy. O som, parecido ao rugido de um vulcão de metal, cortou o coração de Livy como uma lâmina fria. Aletheia dirigiu sua atenção total para ela e fez o impensável:

— O agente EdiNuñez está em risco existencial! Livy Emanuelle, este é um PROTOCOLO DELTA-SETE (Destino com parâmetro desconhecido).

Esse protocolo de contingência extrema bloqueava os algoritmos autônomos da Galiometria, transferindo a autoridade mecânica da sala para um operador biológico. Pela primeira vez na história da Equipe Macro Temporal, Aletheia precisava recorrer à ajuda externa para conter esta CISÃO DE SINGULARIDADE. A voz dela, pela primeira vez desde sua ativação, perdeu a cadência rítmica, oscilando em uma frequência que beirava o pânico artificial:

— Livy Emanuelle... Preste muita atenção! A vida do agente EdiNuñez pode estar em suas mãos! Precisarei de sua intervenção imediata! As leis da física são imutáveis e eu nada posso fazer para dobrá-las. Meu núcleo sintético é incapaz de uma ação efetiva, mas você tem algo que nos diferencia: você tem um corpo. A vida dele no passado depende totalmente de sua ação aqui, agora!

— … E o risco também — completou ela, em um murmúrio preocupado.

... Continua...

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

Imagem: colagens do Pinterest