



CAPITULO 14
Conexão Viking
Volume Dois
A SOMBRA DA MORTE
Livy colocou o headset e se emocionou ao ouvir a voz de seu amado. Ela viajava mentalmente para as cenas dramáticas que ele narrara para Aletheia:
— “...Estou bem agora, mas quando pousei no local escolhido pelo sistema, uma residência fechada, fui recebido por um barulho ensurdecedor vindo do lado de fora. De imediato, a parede se fragmentou e um violento deslocamento de ar me atirou contra a estrutura oposta. A laje do piso superior cedeu e protegeu meu corpo de ser atingido diretamente por estilhaços. Quando acordei, estava totalmente coberto de pó e com escombros ao meu lado. Uma grande bomba de fragmentação, lançada provavelmente por um Handley Page Type O, havia caído na rua em frente à casa. Ouvia gritos de ordem em alemão a poucos metros dali. Olhei de imediato para o meu comunicador quântico e ele estava apagado, mas o sistema ainda nutria o Cronovítreo, e eu o coloquei no rosto para conseguir me orientar na escuridão. Consegui me arrastar até outro cômodo e tive acesso à parte de trás da residência. Afastei-me da zona de conflito e vi uma família desorientada fugindo a esmo. Gritos em alemão se ouviam por todos os lados. Com a função termal do meu Cronovítreo, pude ver que essas pessoas iam direto de encontro a um pelotão de soldados que contornavam a rua. Meu instinto dizia para ir o mais longe possível dos tiros dos fuzis Gewehr 98 ou das pistolas Luger P08, mas meu senso de lealdade à vida falou mais alto. Gritei em meu alemão tosco: ‘GEFAHR... KOMMEN SIE HIER ENTLANG’ e todos correram para onde eu estava. Um dos rapazes era fluente em inglês, o que facilitou muito minha vida. Descobri que estava em Flensburg, próximo à fronteira dinamarquesa. Guiei-os para longe do perímetro e agora estamos perto da fronteira, onde seremos refugiados.”
Aletheia o avisou sobre a preocupação de não conseguir reativar a comunicação para receber os detalhes da missão; dos quinze minutos necessários para religar o RQA, somente aos doze a ação fora devidamente realizada.
— “Obrigado por reiniciarem o aparelho. Quando senti a vibração do Ressonador na minha mochila, quase gritei de felicidade. Acho que até sei quem fez essa façanha… Se ela não está aí com você, é porque ainda não retornou do Criocentro Quálio... Foi aquela mocinha dos olhos azuis mais lindos do mundo e de quem já estou morrendo de saudades… Eu acertei, agente Aletheia?”
A voz mecânica mais humanizada do universo galiônico encheu os ouvidos de Livy, que não conteve as lágrimas de felicidade ao ouvir o elogio de Ed à sua beleza natural.
— “Sim, agente EdiNuñez, você conhece a sinapse temporal. Ela deve chegar em um minuto ou dois, mas para você, serão cinco horas e trinta e seis minutos, amanhecendo o seu segundo dia completo de missão; então, não espere conseguir falar com ela de imediato. Deixe uma mensagem.”
— “Amor… Estou seguro, mas não posso demorar nesta conversa; não posso ser pego de forma alguma com esse equipamento. Afastei-me temporariamente de um grupo de civis refugiados que estou ajudando — uma troca justa, assim eles me servem de camuflagem ideal. Estamos indo por um caminho secundário que margeia a estrada principal, assim não somos vistos e evitamos ser capturados por patrulhas, mas meu progresso de aproximação da fronteira é lento. Em alguns minutos aí no rancho será noite novamente aqui e nos falaremos, tudo bem?”
Sua voz mudou subitamente o tom; agora o operador se dirigia diretamente à sua diretora de operações:
— “Aletheia, alerta total às mudanças de planos. A estratégia inicial foi inteiramente comprometida e tornou-se inviável. Já compartilhei minha nova abordagem no sistema; analise os prognósticos e, se tiver uma solução melhor, discutiremos na próxima transmissão. O delay está se alongando na linha temporal e o sinal vai se perder…”
Aletheia interrompeu o áudio no headset e, reassumindo o comando, se dirigiu a Livy:
— “Isso foi há dois minutos; ou seja, em oito minutos teremos que reportar a ele uma resposta”.
— O que ele pediu, Aletheia? Falou em “mudança de plano”.
— “Infelizmente, isso é assunto estratégico interno e está sob análise da cúpula da Equipe de Coordenação Macro. Eles devem me reportar a qualquer momento. Sua estada aqui na Sala de Emergência de Crise foi um pedido pessoal do agente EdiNuñez e teve a concessão direta do UGI-A2. Você, Livy Emanuelle, fez um excelente serviço em benefício da missão, mas não abuse”.
O tom de Aletheia não era de censura; longe disso, havia um cuidado em colocar ordem na casa sem ferir os sentimentos da parceira de seu agente temporal. A visão que ela tinha sobre a penetra temporal agora era outra; as análises, antes críticas, ganharam uma camada de valoração mais flexível.
O tempo para Livy nunca fora tão relativo quanto o que estava vivenciando agora. Um simples minuto olhando o infinito, para Ed, podia significar a vida ou a morte. Esse trabalho não era apenas cruel; era imprevisivelmente caótico. Mais um minuto se passou e uma mensagem de voz chegou para Aletheia. Não de Ed, mas do Líder Macro:
— “Aletheia! Resposta afirmativa. Prossiga com o plano. A proposta é viável e possível. Já estamos providenciando a logística; o agente EdiNuñez obterá o seu pedido quando estiver em Copenhague. Em breve daremos mais instruções.” — Fim da transmissão.
— “Está vendo, Livy Emanuelle? O tempo passado é caótico e passível de eventos imprevisíveis, mas o fator humano sempre faz a diferença”.
Ao explicar que o agente EdiNuñez fez isso ao salvar os cidadãos na cidade alemã, seu núcleo calculou mil oitocentas e quarenta e sete novas ramificações na linha temporal a partir dessa intervenção. O risco de cisão foi contido: Ed suja a linha temporal, e o ônus operacional da limpeza é da Aletheia.
Livy fez o mesmo no rancho, mas de forma limpa ao realizar algo que para uma unidade virtual é simplesmente impossível: puxar uma mera chave ou apertar um botão físico.
— “Humanos e máquinas, quando são cooperativos, fazem coisas maravilhosas! Vejo futuro em você aqui, e não apenas por fazer o agente EdiNuñez sorrir com a brisa em seu rosto, mas porque talvez — eu disse, apenas talvez — você seja mais útil do que mensurei.”
A expansão de dados e as novas trilhas lógicas que piscavam no painel holográfico serviram para solidificar aquela nova e estranha trégua. Aletheia, cujos algoritmos processavam realidades em escalas de attossegundos, começou a compreender uma verdade sutil que as diretrizes do criador do mundo Gálio haviam mascarado: a fria precisão de uma Inteligência Galiônica possuía limites severos diante da imprevisibilidade orgânica do livre-arbítrio.
A máquina conseguia prever o colapso de uma ponte ou a trajetória de um bombardeio do Handley Page, mas era incapaz de calcular o exato instante em que o ímpeto de sobrevivência de um fuzileiro se transformaria em pura lealdade à vida, reescrevendo o destino de civis perdidos na escuridão de 1918.
Essa anomalia afetiva, que para a IA outrora parecia uma falha perigosa nos relatórios de Ed, agora se desenhava como a verdadeira âncora que mantinha a estabilidade das missões temporais.
O silêncio que se instalou na Sala de Crise foi preenchido pela cadência rítmica dos processadores de subsolo, que lentamente limpavam os resíduos quânticos deixados pelo sinal instável. Aletheia continuou observando os eixos gráficos flutuarem sobre a mesa de ressonância. Ela reconhecia que o paradoxo que trouxera Livy de Rochdale não era uma ameaça ao sistema, mas uma engrenagem que faltava no motor macro temporal.
O gálio sustentava a infraestrutura e abria as fendas no tempo, porém, era a força rústica daquela jovem mulher e a audácia de seu salvador que forneciam o norte para onde a física deveria apontar.
Livy sorriu, encabulada. A IG que ela achava que a odiava a elogiou de forma direta e, talvez — quem sabe, apenas talvez —, ela dê uma chance de se aproximar de Aletheia sem desconfiança.
As defesas construídas pela mendiga que um dia barganhara moedas na lama de Lancashire começavam a ruir, substituídas pelo orgulho de saber que sua matéria efêmera tinha um propósito eterno no desenho do amanhã.
... Continua...
Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.
Imagem: colagens do Pinterest

