CAPITULO 15

Conexão Viking

Volume Dois

FUGA DO CAOS

Front da Grande Guerra, Flensburg, Alemanha, 1918.

O agente EdiNuñez acordou após um breve tempo desacordado; fora arremessado contra uma parede sólida pela força da onda de choque de um deslocamento de ar, produzido por uma bomba que explodiu na rua em frente à casa no instante exato de seu pouso temporal. Não era para estar ali, mas a centenas de quilômetros de distância, na segurança de Copenhague.

Após certificar-se de que estava sem ferimentos graves — apenas contusões do choque contra a parede e cortes superficiais ocasionados pelos fragmentos —, verificou seus equipamentos: apenas seu Cronovítreo estava operacional.

Arrastou-se para longe do epicentro do impacto; a laje que desabara o protegeu de tiros disparados a esmo que atingiam regularmente os escombros. Ao acessar o cômodo atrás da parte desabada, viu-se em um quarto mobiliado com requinte aristocrático.

Buscou de imediato algo para sua defesa pessoal, como uma pistola ou uma adaga. Os armários continham roupas finas e, em uma das gavetas, um porta-joias lacrado; certamente, na pressa da fuga, os donos do imóvel não tiveram tempo de levá-lo. Quebrou o lacre, constatando que havia joias de ouro e pedras de valor considerável. Jogou tudo na mochila tática e saiu do perímetro antes que algum soldado inimigo o surpreendesse.

No caminho, ajudou uma família desesperada. A guerra é um flagelo que o homem insiste em não abandonar. Mais pessoas se juntaram ao grupo ao longo do trajeto e conseguiram se afastar do conflito intenso, parando apenas na zona rural. Não fizeram fogo para não denunciar a posição. Recolheram cobertas e o que mais pudesse servir de abrigo contra o frio cortante da madrugada.

Ao amanhecer, já estavam fora da cidade. Seguiram pela lateral da estrada principal, um caminho rústico onde o solo de terra batida havia se transformado em uma lama de degelo cinzenta, espessa e grudenta que fazia as botas afundarem a cada passo exaustivo.

Para o Ed ir de Flensburg até a ponte de Frederikshøj, no Rio Kongeå, o caminho natural da estrada principal passaria exatamente por dentro de duas cidades, Aabenraa e Haderslev, que nessa época ainda pertenciam ao Império Alemão. Então ele optou por usar as estradas vicinais rústicas e rurais a oeste dessas cidades, onde há uma vasta planície mista pantanosa na península da Jutlândia, a região rural de Toftlund.

O grupo progredia com lentidão, escondendo-se atrás dos knicks — as densas cercas vivas de arbustos espinhosos e galhos secos retorcidos que dividiam as propriedades rurais. Essas barreiras naturais funcionavam como uma camuflagem perfeita, protegendo a visão do grupo em relação à estrada principal sempre que ouviam o ronco distante dos motores de caminhões de transporte do exército alemão.

Nesse ritmo, não havia como cumprir o prazo estrito de uma semana para o resgate do artefato viking, mas ele não abandonaria idosos, mulheres e crianças à própria sorte apenas para bater uma meta operacional.

Antes do pôr do sol, aproximaram-se de uma modesta casa de camponeses. A propriedade exibia a típica arquitetura Fachwerk da região, com paredes de tijolos vermelhos cortadas por vigas de madeira escura e um telhado muito inclinado feito de palha grossa, de onde subia um fio ralo de fumaça pela chaminé.

Os residentes, um homem e uma mulher, estavam amarrados do lado externo na frente da casa, um de costas ao outro; dois soldados zombavam da situação e um deles desferia coronhadas brutais com o fuzil no camponês, que, ferido, sangrava bastante enquanto a mulher gritava desesperada.

Ed entendeu o cenário de imediato. Aquele era outro flagelo covarde da guerra: os espólios sujos que ele, como oficial Tenente-Comandante dos SEALs, jamais admitiu de sua tropa contra os inimigos silizoides nos combates no futuro.

Tomado pela ira, mas sem perder a razão tática, orientou o rapaz que servia de intérprete: todos deveriam permanecer inteiramente ocultos na mata. Sob nenhuma hipótese deveriam abandonar aquela posição de segurança. Ed uniria o útil ao agradável: eliminaria a corja alemã que abusava de camponeses indefesos e ainda confiscaria o Büssing, o caminhão militar estacionado na frente da residência.

Munido apenas de uma adaga que retirara de um soldado morto ainda em Flensburg, partiu de forma furtiva. Seu modo de correr e se mimetizar na vegetação surpreendeu o grupo de civis; eram técnicas de infiltração nunca antes vistas por eles.

Em menos de cinco minutos, os dois soldados que torturavam o casal estavam caídos no chão, ambos com as mãos ensanguentadas pressionando a própria garganta, terminantemente impossibilitados de alertar quem mais estivesse no interior da casa.

Ed fez sinal de silêncio ao homem amarrado e perguntou baixinho, querendo saber quantos mais estavam dentro da casa:

— “Wie viele? Zwei… drei?”

O homem respondeu “dois” em alemão, contendo a dor real e emocional.

Então, sacando do coldre do soldado caído a pistola Mauser C96, o tenente partiu em direção à porta aberta da residência.

Logo se ouviram três estampidos secos e abafados, seguidos de um silêncio mortal. Para garantir o efeito prático, cada invasor levou um tiro certeiro na nuca; o terceiro disparo foi desferido diretamente na parte íntima do cabo violador que estava no comando da ação.

Ed saiu do imóvel trazendo uma jovem de pele branca, manchada de vermelho sangue nas pernas, com as roupas rasgadas pela brutalidade e a alma destruída pela barbárie.

O agente cortou as amarras do casal, que acolheu em prantos a filha violada. Ele chamou os desabrigados ocultos na lateral da estrada para se juntarem a eles, logo empurraram no braço e esconderam o caminhão militar Büssing na parte de trás da propriedade. Os homens do grupo ajudaram a enterrar os corpos no quintal, enquanto as mulheres cuidaram dos ferimentos físicos tanto do pai, quanto da filha.

A alma destruída só o tempo cura, porém sem jamais apagar suas cicatrizes; alimentaram-se com os insumos da despensa e, após o anoitecer, prepararam-se para seguir viagem, incluindo a família rural que não suportava mais viver no local daquela atrocidade.

Antes de seguirem com Ed no volante, um dos homens acionou manualmente a manivela frontal externa para ligar os pesados motores a combustão, ação que fazia o motor a gasolina — moderno para a época, antiguíssimo para o agente — gerar um barulho imenso e cobrir tudo com uma densa fumaça negra.

Com os faróis desligados, não permitiu que ninguém o acompanhasse na cabine de comando; com ele viajavam segredos complexos, como o Ressonador que, mesmo “apagado”, nutria os sensores do seu Cronovítreo com uma tecnologia que o fazia enxergar na escuridão profunda através da função térmica e da capacidade telescópica de aproximação óptica. Exaustos, logo todos os refugiados dormiram na carroceria, entregues ao cansaço.

Próximo ao amanhecer, o aparelho Ressonador quântico vibrou dentro da mochila tática. Ed soltou um suspiro profundo de alívio; sabia que Aletheia encontraria um jeito de reativar o sinal através do Criocentro Quálio. A barreira do frio extremo — uma ideia dele por pura segurança operacional — precisava ser urgentemente revista em seus conceitos, pois apenas a mente extraordinária de Livy poderia ter realizado tamanha façanha no presente.

Olhou fixamente para o painel de metal do caminhão; o sol finalmente rasgava o horizonte de sua segunda manhã em 1918. O cálculo mental de um ex-operador das forças especiais não falhava: trinta e cinco horas de isolamento absoluto haviam terminado.

Após o contato com a base — quando deixou a mensagem para Livy —, era hora de torcer para o combustível aguentar até a fronteira que se aproximava. O plano agora era ser o porta-voz do grupo; era a tentativa de usar o passaporte inglês, preparado pela Equipe de Coordenação Macro para passar despercebido em um país neutro, mas de inclinação britânica. Aquele seria seu salvo-conduto para entrar na Dinamarca sem sofrer uma prisão ou fazer vítimas civis.

A casa dos camponeses ficava a meros dez quilômetros de Flensburg, o que significava que rasgaram sessenta e cinco quilômetros de estrada pedregosa até a linha do Rio Kongeå, a verdadeira fronteira dinamarquesa daquela época. Desde a partida, às vinte e duas horas da noite anterior, o progresso fora um martírio de paciência tática.

O Büssing, avançando em modo de lesma para reduzir o barulho de seu motor — uma média torturante de cinco quilômetros por hora —, após doze horas consecutivas com os braços travados ao volante na base do estresse e do improviso, Ed finalmente avistou os contornos distantes dos postos de controle da fronteira.

A precariedade do lado alemão, onde os esforços de guerra exigiam o máximo de homens na linha de frente, deixara apenas dois Grenzsoldaten na guarita da Grenzschutzhaus e uma cancela de madeira simples barrando a passagem direta na cabeceira da ponte de Frederikshøj, o único acesso sobre o rio.

Do outro lado da margem, o reino dinamarquês detinha um controle rígido contra espiões em seu perímetro, mas mostrava-se complacente com refugiados, inclusive os de origem alemã. O povo, a maior vítima dos conflitos, não deveria pagar pelos erros de seus governantes.

Utilizando o último suspiro do motor, Ed acelerou o caminhão contra a barreira militar alemã. Avisados previamente pelo comandante, todos os ocupantes na carroceria do veículo estavam deitados e protegidos pelo ferro da caçamba. Antes que o guarda de plantão percebesse que se tratava de um civil conduzindo um veículo do próprio exército, Ed disparou a pistola Mauser C96 confiscada contra o chão, rente ao pé do soldado que saíra da guarita. O guarda se jogou em pânico para fora da estrada e o pesado veículo passou, estraçalhando a frágil barricada e subindo a ponte de pedra e madeira sobre o rio.

Logo em seguida, tiros de fuzil ricochetearam na lataria traseira, mas o Büssing já estava no meio da travessia. O barulho dos disparos alemães alertou imediatamente o posto da Grænsegendarmeri; Soldados dinamarqueses posicionaram-se rapidamente em linha de tiro, mas não dispararam ao avistarem o motorista estender uma camisa branca com a mão para fora da janela da cabine.

... Continua...

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

Imagem: Google AI by Nano Banana