CAPITULO 16

Conexão Viking

Volume Dois

IDENTIDADE SECRETA

O veículo parou a uma distância perfeitamente segura e todos os refugiados saíram com as mãos levantadas em sinal de paz e rendição espontânea. Imediatamente, os guardas romperam a cobertura, fuzis em punho, vociferando ordens secas e metálicas que cortaram o ar frio da manhã:

— STÅ STILL! HÆNDERNE OP! RØR JER IKKE! PÅ KNÆ!

Os refugiados, aterrorizados e sem compreender totalmente as ordens, reagiram ao tom de comando universal da guerra: largaram o que tinham em mãos e se atiraram de joelhos no chão de terra batida, mãos entrelaçadas atrás da nuca, temendo o pior. Ed, no entanto, manteve a postura rígida em pé. Com um movimento lento e calculado para não despertar um reflexo de gatilho, ele revelou na mão que segurava a camisa branca, o documento de cidadania britânica. O selo real brilhava sob a luz pálida do sol.

O Overgendarme fez um sinal brusco para que a tropa baixasse as armas, mas sem perder a postura de alerta. Ele se aproximou do agente, olhos fixos no documento, enquanto mantinha as mãos na pistola, aguardando validar a mentira perfeita criada pela Equipe de Coordenação Macro. Após a barreira da desconfiança ser derrubada, foram recebidos por uma comissão de triagem e de Sygeplejerske. Ed despediu-se do grupo que, profundamente emocionados, agradeceram a ajuda que salvou suas vidas.

Ao ser apresentado ao Premierløjtnant de plantão, os Gendamerne não fizeram perguntas incômodas; apenas o acompanharam com respeito até o posto do Toldvæsenet para a burocracia de imigração. Lá dentro, EdiNuñez adotou de imediato uma postura impositiva para evitar qualquer tipo de revista em sua mochila tática — os aparelhos tecnológicos do futuro jamais poderiam ser descobertos por olhos primitivos.

Em uma sala reservada, Ed exibiu novas credenciais militares: agora se posicionando como um agente secreto a serviço de Sua Majestade, o rei George V, portando informações criptografadas cruciais para o comando aliado. A abordagem audaciosa surtiu o efeito desejado, mas recebeu a notícia que não havia nenhum veículo de partida e que um novo transporte oficial da coroa só chegaria ao posto no dia seguinte.

Aquela janela de atraso inviabilizaria por completo concluir a extração do artefato viking dentro do prazo de uma semana. Contudo, o destino jogou a seu favor: havia um caminhão pesado parado no pátio com problemas mecânicos, que chegara há dois dias por reboque. O veículo deveria conduzir um novo grupo de refugiados feridos até Kolding, uma importante cidade ferroviária situada logo acima da linha de fronteira.

Como é mecânico qualificado e engenheiro de campo, Ed não teve nenhuma dificuldade para diagnosticar a pane — tratava-se de um simples filtro de combustível entupido por impurezas da estrada. Sob suas mãos experientes, o motor logo voltou a rugir na manhã fria como um leão barulhento.

Como a guarnição local não dispunha de um motorista extra para a rota de viagem, o tenente prontamente se colocou à disposição da Dansk Røde Kors, a Cruz Vermelha dinamarquesa, oferecendo-se como voluntário para dirigir o veículo e transportar os civis debilitados.

Era uma mão lavando a outra, e o caçador temporal agora possuía rodas e salvo-conduto para avançar livre e mais rapidamente pelo inóspito e acidentado território nórdico.

Com a posição do agente no passado sob controle, a Sala de Emergência de Crise perdeu esse status e voltou a se chamar Sala de Comando Tático, ou simplesmente “Sala Secreta”. Livy se acomodou na cadeira e estudou os gráficos que piscavam na Mesa de Ressonância Temporal. A saúde dele se mostrava estável: batimento cardíaco em equilíbrio, nada alterado.

Era uma tortura lenta. Quando ela estava em 1798, jamais imaginou que agora estaria do outro lado, em uma linha temporal absolutamente oposta. Percebendo a introspecção dela, Aletheia tentou puxar conversa:

— Não se torture, Livy Emanuelle. O agente EdiNuñez é extremamente eficiente em se camuflar e concluir com êxito suas missões. Foram raras as vezes que perdemos para o tempo, mas nunca foi por erro ou negligência dele.

Livy aproveitou o momento para saber mais detalhes:

— Pode me falar sobre os planos que ele mudou para esta missão?

— É claro! — respondeu Aletheia prontamente.

— Você recebeu permissão superior e faz parte dela agora.

A Inteligência Galiônica explicou que a diretriz programada para o salto deveria ter enviado o agente diretamente para Copenhague; lá, ele estudaria o terreno e aguardaria o momento exato para agir.

Porém, algo que ainda não está totalmente claro e sob investigação mudou sua rota de ejeção e ele pousou em Flensburg, próximo à fronteira alemã. Só lhe restou alterar a estratégia em campo e agora terá que chegar à capital dinamarquesa usando suas habilidades natas.

— Somente quando chegar lá ele retirará os equipamentos que requisitou ao Líder Macro.

— E como vão fazer esses “equipamentos” chegarem às mãos dele lá no passado?

Livy fez uma pergunta inteligente, que surpreendeu Aletheia pela lógica contida nela.

— Um pacote físico será enviado para um local específico do passado que ainda existe hoje, mas que nos dias atuais está fechada ao público.

Antes que Livy perguntasse, Aletheia falou que o local da entrega era uma caixa postal que está lacrada e sem uso dentro da antiga agência central do Postvæsenet — o serviço postal dinamarquês que esteve ativo, sempre no mesmo prédio da rua Købmagergade, até o início do atual século, quando finalmente fechou ao público.

Uma clareza se acendeu no rosto de Livy.

— E o que terá nesse pacote? — perguntou curiosa. O interesse a tirou temporariamente da tensão.

— Os acessórios para concluir sua missão. Ouça você mesma o pedido feito por ele antes do seu retorno do Criocentro Quálio. Coloque o headset.

Livy rapidamente posicionou o fone, ávida para ouvir a voz gravada de seu amado:

— “...Estou bastante distante do local da missão, ainda me aproximando da fronteira. O plano anterior está perdido e o que vou propor será radical, mas é o único jeito de não fracassarmos”.

A solução consistia em fazê-lo se disfarçar em diplomata, embaixador ou lorde britânico, com a missão de portar uma mensagem cifrada para entregar em mãos do duque Phillip, marido da duquesa Astrid. Assim contornaria a burocracia que se oporia naturalmente ao seu ingresso na residência oficial do nobre em Copenhague.

Para dar certo, o agente precisaria receber no passado roupas adequadas, uma mensagem que justifique seu acesso e audiência com o Duque, e principalmente de documentos e títulos oficiais falsificados milimetricamente... Tudo em tempo recorde!

— “Conseguem enviar esses objetos para algum lugar seguro onde eu possa resgatá-los? Se tiverem outra solução, à noite aqui, em dez minutos aí, me avisem. Agora, obrigado por reiniciarem o Ressonador. Quando senti a vibração dele na minha mochila, quase gritei de felicidade. Acho que até sei quem fez essa façanha…”

Aletheia interrompeu a mensagem de áudio exatamente nesse ponto.

— A partir daqui, Livy Emanuelle, você já teve ciência minutos atrás, quando o sinal foi restabelecido enquanto você ainda estava a caminho da base. Agora, faltam menos de oito minutos para o nosso próximo contato programado. É o tempo que temos para validar a logística do Líder Macro e preparar o relatório técnico que ele receberá em seu amanhecer na Dinamarca.

Livy respirou fundo, sentindo o peso e o privilégio de ser o segredo por trás do sucesso do homem que amava. Ed se passaria por um lorde de menor expressão levando uma mensagem cifrada a ser entregue nas mãos do Duque Phillip MacSterling.

A carta, escrita em Cifra Playfair, mas sob a variante do “Dinamarquês Arcaico”, conterá um aviso recomendando que abandonem a Silent House, devido a suspeitas de que agentes secretos alemães pretendem sequestrar a duquesa Astrid de Beck-Glücksburg.

A caixa postal conterá os documentos falsos em nome de Sir Julian Alistair Ashford, um adido cultural e oficial de ligação da Cruz Vermelha Britânica. Era o disfarce perfeito. Um lorde sem expressão justificaria ser emissário de uma correspondência secreta.

A Equipe de Coordenação Macro verificou que não havia chances de Sir Julian e o Duque Phillip serem conhecidos entre si. Livy, porém, ainda não estava satisfeita:

— Isso é tudo de que ele precisa?

— Sim, Livy. Além dos títulos, documentos forjados e roupas, ele disporá de um novo aparato tecnológico: um protótipo do Contactvísion inserido em um par de lentes de contato que tornará azuis seus olhos castanhos. O resto será por conta de sua sagacidade sem limites.

Livy concordou e pensou consigo mesma:

— “Sagacidade, sei bem o que é isso... Veio com um papinho de ‘vou te preservar’ e pow! Aqui estou eu de quatro por ele... Espertinho!”

Ela sentia uma pontada de ciúme que nem o frio do Criocentro explicaria.

— “Então o currículo dele inclui cofres e lençóis de seda? Ainda bem que agora o único salto que ele dá é para dentro de mim mesma” — finalizou, mordendo o lábio inferior.

— E como ele vai chegar lá? Ele não vai precisar de dinheiro?

— Você o viu em ação. Ele vai se virar. Uma de suas maiores habilidades é conseguir os recursos que financiem suas missões — Aletheia respondeu, e viu o rosto de Livy perder a cor.

— Eu sei no que está pensando... E ele já fez muito disso. Mas era antes de você entrar na vida dele. Seduzir mulheres ricas e solitárias facilitava o acesso a cofres e joias. Foi uma prática que ele abandonou, graças a você, Livy Emanuelle.

Aletheia complementou informando que o RQA permite dois pequenos saltos espaciais; ele pode saltar para dentro de um cofre ou sala fechada por dois minutos e retornar. Ele guarda isso como trunfo para casos de extrema necessidade.

— Wow! — foi a única resposta de Livy, ciente de que aquela revelação lhe soava bastante familiar.

... Continua...

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

Imagem: Google AI by Nano Banana 2