



CAPITULO 17
Conexão Viking
Volume Dois
O VOLUNTÁRIO DA "LUZ VERMELHA"
— “Aletheia…”
— “Chamando agente Aletheia… Na escuta, câmbio?”
O alto-falante da Mesa de Ressonância Temporal soou forte no laboratório, fazendo Livy dar um salto de susto na cadeira.
— Na escuta, agente EdiNuñez… Pode prosseguir! Como anda a missão… Câmbio?
— Aletheia assumiu seu papel de liderança imediata.
“Adiantada. Não só atravessei a fronteira alemã, como acabo de chegar a Fredericia, na península da Jylland, onde deixei com os Sanitetskolonne os feridos que transportei no Sygehus local. Vim dirigindo um pesado Lastbil militar que assumi como voluntário da Cruz Vermelha. Câmbio!”
— Excelente, agente EdiNuñez. Sua nova estratégia de campo foi devidamente aprovada pelo comando e as diretrizes detalhadas da missão estou lhe enviando neste exato instante pelo canal quântico. Leia e siga cada ponto à risca…
— Agora… Tem uma jovem aqui na Sala de Comando Tático querendo muito falar com você. Fale, Livy!
— Oi, amor… Você está bem? Se machucou? Está se alimentando? Me diga!
— “Relaxe, Livy! Tive sorte e está tudo certo por aqui. É alta madrugada e logo amanhecerá o quarto dia de operação. Não estou ferido, nem com fome. Assumi o volante de um pesado ‘Lastbil’ militar como voluntário; poucas pessoas sabem conduzir maquinários a combustão nestes tempos e fui extremamente bem tratado pelos dinamarqueses”
Ed prosseguia seu monólogo:
— “Identificar-me como cidadão britânico abriu muitas portas. Agora me encontro abrigado em uma discreta barraca de um acampamento de campanha da Dansk Røde Kors, a Cruz Vermelha da Dinamarca, onde vou descansar um pouco antes de seguir viagem amanhã”.
— E como vai fazer para chegar até a capital? Tem aqueles dois espaços de mar para atravessar…
“Como disse, tive muita sorte. A casa atingida pela bomba em Flensburg era de alguém de posses e estava deserta. Em uma gaveta achei uma caixa com joias valiosas. Claro que joguei tudo na mochila; vou vendê-las em alguma Guldsmed clandestina e usarei os recursos em espécie para trocar de roupas — as minhas estão imundas — e pagar os pedágios, as færger que cruzam o estreito de Lillebælt até a cidade de Strib, já na ilha de Fyn, e as propinas necessárias pelo caminho. Não posso perder tempo até chegar a Nyborg e atravessar o estreito de Storebælt até Korsør, já na ilha de Sjælland, onde fica Copenhague. O caminhão que dirijo tem o brasão da Cruz Vermelha estampado na lataria; isso facilitará a aproximação e acesso.”
Livy interrompeu o relato com crueza:
— O que é essa tal “Cruz Vermelha”?… Essa história tá muito mal contada… Esclareça isso já e... Cuidado quando for “pegar” dinheiro alheio, viu?
— “Olha quem fala! Quer me dar alguma dica de gatunagem? Hahahaha!”
— Engraçadinho! Se está fugindo da pergunta é porque essa tal Cruz Vermelha é, na verdade, luz vermelha, é? Está levando quengas loiras aí no automóvel, é isso, Ed?
— “Misericórdia… Cruz Vermelha é um grupo de assistência humanitária que age em áreas de conflito. Aletheia, por favor, projete na tela um resumo dos feitos dessa organização para ela parar de pensar bobagem.”
— Perdão, amor… Eu desconheço muita coisa que não existia no meu passado. Estava brincando, me desculpa, tá bom? Era só para quebrar a tensão!
— “Putz! Tem razão, meu amor. Eu a entendo e a perdoo. Isso é falha minha, mas não quero bombardeá-la de informações; temos que ir devagar, certo?”
— Tá bom! Fica bem! Estou muito feliz que saiu daquela zona de guerra!
— “Foi feia a coisa lá. Quando voltar, conto os detalhes… Agora, Aletheia… Mais alguma recomendação tática? Câmbio!”
— Não, agente EdiNuñez. Siga com a cautela que ‘quase’ sempre norteou suas ações… Como resgatar donzelas em perigo… Não é verdade, Livy Emanuelle? Câmbio!
— “Hahaha… Ops!”
Ed gargalhou no fone, mas logo parou ao lembrar que todos os refugiados dormiam ao seu redor no acampamento de campanha da Dansk Røde Kors. Livy se despediu, radiante com as notícias.
— Não sei do que vocês dois estão falando… Se cuide, amor… Já sabe o que o espera quando voltar!
— “Ai! Nem me lembre! Aguarde-me, viu… Que quando eu retornar…! Vou dormir um pouco agora… Sozinho, ok Livy? Quanto a você, Aletheia, devo me reportar apenas se houver imprevistos graves. Provavelmente após eu chegar a Copenhague, já no último dia de missão aqui, às cinco horas da manhã. Câmbio.”
— Qual será a sua estratégia para se aproximar do duque ou da princesa sem uma audiência previamente marcada? O tradicional ‘pé na porta’ e que o seu Deus o ajude? Câmbio!
Aletheia disparou, sendo puramente sarcástica, uma faceta que adquirira convivendo de perto com aquele humano peculiar.
— “De jeito nenhum! Serei um gentleman e agirei como um legítimo lorde. Vou tentar a diplomacia primeiro: chegar sem aviso prévio, apenas munido da carta cifrada em dinamarquês arcaico e do título de cavaleiro real a serviço do Rei da Inglaterra. Para isso, vou antecipar essa abordagem de infiltração para a parte da manhã. Se não obtiver êxito, o pé na porta passará a ser uma opção viável até o limite estrito das dezenove horas e quinze minutos. Tchau, Livy… Câmbio e desligo.”
Livy, sem compreender toda a complexidade técnica do diálogo, soltou um suspiro feliz após o fim da transmissão de áudio. Ainda assim, o silêncio que se seguiu no laboratório trouxe de volta o eco de uma ferida recente. Olhando fixamente para os feixes de luz da Mesa de Ressonância, ela lembrou-se de quando tudo começou.
O rancor que nutria por Aletheia era quase palpável; afinal, jamais esqueceria que após a Inteligência Galiônica perceber que Ed estava com ela no celeiro em Rochdale, ordenara friamente o descarte daquela "carga inútil e perigosa". Na época, Aletheia via Livy apenas como uma anomalia biológica descartável, censurando o agente EdiNuñez por sua eterna fraqueza em se meter em "rabos de saia" através das eras. Foi justamente essa teimosia dele que a salvou da morte por um triz.
Contudo, o confinamento na Sala Secreta estava operando um milagre silencioso. Cada relatório compartilhado, cada batimento cardíaco do Ed monitorado em conjunto e a dedicação matemática da IG para manter o homem que ela amava seguro no passado, começavam a pavimentar uma trégua. Livy percebia que a frieza de Aletheia não era maldade, mas pura engrenagem de proteção. Romper o gelo com gafes sobre "luz vermelha" era sua forma tipicamente humana de clamar por conexão naquele santuário tecnológico de 2075. Deixando esses pensamentos de lado, ela falou:
— Que bom que ele está bem! Quanto tempo ele vai levar para voltar a se comunicar? Preciso ir ao banheiro e pegar algo na cozinha para comer… Essa ansiedade me dá uma fome!
Aletheia, com sua precisão metódica de sempre, informou o tempo exato disponível para o suprimento das necessidades biológicas da humana:
— Se o próximo contato programado ocorrerá às cinco horas da manhã do Dia D no passado, restando ainda a margem de segurança até a hora do não retorno das dezenove horas e quinze minutos, você dispõe de exatos vinte e cinco minutos e dezesseis segundos neste ambiente. Vá logo, Livy Emanuelle; pode realizar suas necessidades sem pressa.
— Tá bem… Já volto!
Livy e Aletheia estavam finalmente rompendo as barreiras da desconfiança mútua. Cada interação derrubava um tijolo pesado daquela antiga muralha.
No passado de 1918, Ed caminhou observando as vitrines do comércio de Kolding, uma cidade portuária e ferroviária importante naquela época. A espera de receber a autorização e o despacho para seguir viagem era um martírio burocrático; ele seguiria dirigindo o Büssing, margeando a costa por cerca de 25 km até chegar ao porto militar e estratégico de Fredericia, de onde finalmente embarcaria nas færger com destino à ilha de Fyn.
Procurava roupas comuns para se misturar perfeitamente à multidão. Comprou um terno completo com colete — elegante sem exagero —, um sobretudo para o frio cortante da região e um chapéu, acessório indispensável para esconder sua silhueta de viajante.
As joias foram negociadas em uma guldsmed discreta que não fazia perguntas; mesmo sem obter o valor real de mercado das peças, o importante era ter as Danske Kroner — as coroas dinamarquesas que abririam portas pelo caminho.
Ele se encantou com um belo anel de ouro com uma safira de um azul inigualável. Não o negociou; guardou-o secretamente para uma ocasião especial. Mal sabia ele que aquele brilho azul seria o único objeto capaz de rivalizar com a intensidade do olhar de sua amada no futuro.
Lá mesmo, adquiriu por permuta um relógio de bolso — um acessório de época para seu controle pessoal; uma metáfora amarga para quem sabe que controlar o tempo é algo impossível.
Era seu quarto dia na Dinamarca. Ed certificou-se de que os feridos que transportava estavam confortáveis no Feltlazaret improvisado pela Dansk Røde Kors, providenciando pessoalmente alimentos e líquidos para todos. Só então assumiria o volante com a consciência limpa.
Ed ponderava a falta de sorte inicial por ter pousado tão longe de seu destino real, tendo agora que correr contra o relógio. Ele sabia que nada era ao acaso. Aquelas vidas que salvara não foram em vão; o destino o colocara ali para salvaguardá-las por algum motivo, fosse por atos nobres ou obscuros no futuro.
Cada um faz seu próprio caminho e assume as devidas consequências; talvez isso justificasse a sorte que tivera desde que saíra de trás dos escombros que o protegeram enquanto estava desacordado. Aquelas pessoas não pareciam ter índole voltada para o mal; ele fizera sua parte e sua consciência o permitia dormir sossegado durante as missões na linha temporal.
... Continua...
Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.
Imagem: Google AI by Nano Banana 2

