CAPITULO 18

Conexão Viking

Volume Dois

TRAVESSIA POR TERRA E MAR

Apresentou-se ao meio-dia no posto avançado da Dansk Røde Kors em Kolding. Recebeu os manifestos da carga e a lista de pessoas que seguiriam na carroceria sob lonas grossas — o único meio seguro e gratuito para os humildes atravessarem as barreiras de inspeção e as Færger entre as ilhas desse espetacular país nórdico.

Após almoçar junto aos refugiados no Fælleskøkken coletivo servido por voluntárias, recusou-se, fingindo não ouvir, ao ser chamado para comer separadamente dos demais. Não queria se sentar entre os outros motoristas e a liderança do grupo altruísta; evitava ser interrogado, algo comum entre quem adora puxar conversa fiada.

Com o caminhão Büssing abastecido, a saída da cidade esbarrou na burocracia de um Toldembedsmand arrogante. O oficial da alfândega exigia um carimbo extra na via do Passager-og Flygtningemanifest, e a partida atrasou por três intermináveis horas. A paciência do agente já estava por um fio; sua vontade de esmurrar a face prepotente daquele dinamarquês testou os limites de seu autocontrole.

Ed só não o fez para não arruinar seu disfarce, mas seu plano original de chegar a Fredericia antes que a última balsa atravessasse o estreito esvaía-se. Novamente, não levaria ninguém ao seu lado na cabine; não precisava de distrações para não sentir sono. Nos tempos de operador das forças especiais, ficava até quarenta e oito horas em vigília constante, sem descanso. Na guerra, em um piscar de olhos decide-se quem vive ou perece. Sua única companhia agora eram os manifestos oficiais, o dinheiro reservado para as inevitáveis propinas e os documentos forjados, guardados na valise de couro que comprara em Kolding.

Partiram finalmente às 16h30. O veículo permitia uma velocidade máxima de 25 quilômetros por hora, mas isso forçaria o motor ao limite e não era prudente exigir tal performance em estradas danificadas. O comandante manteve o cronograma de seguir em marcha segura, variando entre 15 e 20 quilômetros por hora, ele ainda nutria a frágil esperança de chegar antes das 18h e, com diplomacia, tentar uma vaga de emergência na balsa por se tratar de um transporte de ajuda humanitária da Dansk Røde Kors.

Não foi suficiente.

Ao avistar o porto de Fredericia, Ed viu a última embarcação se distanciando lentamente nas águas frias do Lillebælt… Ele amaldiçoou o burocrata de Kolding mentalmente. Mas deu de ombros.

Embora o tempo agora estivesse sem qualquer gordura ou margem de erro, pelo menos poderia comprar alimentos pesados para os refugiados e todos poderiam descansar, inclusive ele, pois ainda faltavam dois terços do trajeto total a serem vencidos.

Ed, usando a autoridade do brasão da Dansk Røde Kors pintado na lona, conseguiu adentrar o pátio protegido do porto. Assim, pôde, com a ajuda de dois homens e uma mulher da carroceria, providenciar pães e frutas para o grupo. Após se alimentar, caminhou no escuro para conhecer o cais, conversar com alguns encarregados e com os Havnearbejdere locais, aprendendo com os estivadores os detalhes da logística do estreito e as condições reais da estrada à frente.

Ao voltar, trancou-se na cabine de comando, pedindo que os homens se revesassem na vigília externa do caminhão Büssing — embora aquelas pessoas só tivessem a roupa do corpo e sua dignidade, havia uma carga que precisava chegar inteira na capital.

Dormiu com um olho aberto, afinal era tempo de guerra e, embora o povo dinamarquês respeitasse o patrimônio alheio, eram dias de extrema escassez; todo cuidado tático era pouco. Ao amanhecer, pegaram a primeira balsa disponível e deixaram o litoral da Jylland para trás. A travessia do Lillebælt era torturantemente lenta, mas necessária.

Quando finalmente desembarcaram e tiveram acesso à ilha de Fyn, já no quinto dia de missão, o relógio voltou a pressionar. Precisavam cruzar a ilha inteira e chegar a Nyborg antes do último transporte fluvial sair no fim da tarde. Se conseguisse embarcar a tempo, Ed dirigiria a noite toda pela ilha de Sjælland para cumprir o cronograma estrito: chegar à capital Copenhague um dia antes do limite para resgatar a caixa secreta na agência postal da Postvæsenet.

O fato de estar em um Lastbil com a bandeira da Dansk Røde Kors garantia-lhe prioridade absoluta nas Færger de acesso entre as ilhas e passagem livre, sem embargos, nos postos oficiais de controle. O veículo foi rapidamente posicionado pelos oficiais do Toldvæsenet de forma estratégica, pronto para entrar e sair primeiro da embarcação.

Nessa missão, tirando a teimosia xenofóbica daquele primeiro agente alfandegário, tudo conspirava a seu favor; nunca um improviso tático fora tão certeiro na linha. Às 08h00, o grupo já se encontrava no meio do estreito entre as ilhas e, uma hora depois, desembarcavam com sucesso no cais de Middelfart.

O tanque de combustível havia sido reabastecido em Fredericia com as notas de Rationeringskort fornecidas pela Dansk Røde Kors, devidamente carimbadas por um Gendarm sisudo do posto militar local.

Descansado e pronto para encarar um dia inteiro de viagem pesada, Ed temia que a mecânica rústica da máquina não resistisse ao esforço contínuo que ele exigiria dela a partir dali. Sua velocidade máxima de 25 km/h era um tormento indescritível para um operador do futuro que já dirigira uma Lamborghini Revuelto a mais de 300 km/h na Autobahn alemã, em uma de suas breves férias na linha temporal do passado intermediário, entre 2023 e 2030.

Contudo, manteve o ritmo prudente de seguir na média segura de 15 km/h, avançando devagar, mas sempre em frente.

Enquanto atravessava a província de Fyn, Ed sentia o peso esmagador da história em cada quilômetro vencido. A trepidação violenta das rodas de ferro sobre o cascalho irregular, de Middelfart até Nyborg — o único material rudimentar que impedia o caminhão de afundar no solo lamacento e úmido resultante do degelo de abril —, fazia com que a estrutura do veículo castigasse a coluna do oficial a cada solavanco na cabine.

A falta crônica de pneus de borracha vulcanizada de qualidade, todos confiscados de forma implacável para o esforço de guerra europeu, obrigava o uso de bandagens de borracha ressecada reforçadas com pesadas correntes de ferro, necessárias para garantir o mínimo de abrasão e tração no solo escorregadio das Biveje.

Ed sentia também a dor terrível dos feridos na carroceria; era um dilema militar e humano: apressar-se, fazendo as correntes de ferro martelarem o chassi e torturarem quem estava ali atrás, ou marchar devagar e fazer a missão quântica fracassar, o que custaria muito mais vidas inocentes no futuro.

À beira da estrada, ele via os Bønder, com as mãos sujas da terra preta e úmida do degelo, pararem temporariamente o preparo do plantio da cevada para observar a passagem solene do caminhão da Dansk Røde Kors — sombras silenciosas e curiosas em um país que tentava manter a neutralidade a qualquer custo enquanto o resto da Europa sangrava nas trincheiras.

Ele sabia perfeitamente que, se perdesse a Nyborg-færgen por meros minutos de atraso, como aconteceu em Fredericia, o efeito borboleta na malha do tempo poderia gerar um futuro completamente imprevisível e catastrófico. Aquela lentidão mecânica não era apenas física; era uma tortura psicológica asfixiante que exigia cada grama de sua disciplina de operador das forças especiais.

O barulho irritante do motor, misturado ao rangido das ferragens e ao tilintar constante das correntes no cascalho, era a sua única trilha sonora — um lembrete cruel de que aquela máquina de ferro era um fóssil tecnológico perto dos veículos que ele estava acostumado a pilotar no século XXI.

Ao atravessar as ruas de Odense, o coração pulsante da ilha de Fyn, Ed vislumbrou as fachadas coloridas das casas que pareciam ter saído diretamente de um conto de Hans Christian Andersen. Era um contraste doloroso e nítido: a beleza bucólica e pacífica dos vilarejos dinamarqueses versus o desespero cru nos olhos dos refugiados que ele carregava na retaguarda.

Seu único alento era que, na terra de tão aclamado autor dinamarquês, o título de uma de suas maiores obras, Den lille Havfrue, a aclamadíssima “Pequena Sereia”, fazia-o lembrar-se de imediato de sua “pequena sombra”, esperando-o em seu camafeu sagrado — o reduto de aconchego, paixão e paz que se tornara o Rancho Nevado.

Uma parada estratégica em Odense para esfriar o bloco de metal do motor, abastecer o estômago dos viajantes e permitir uma simples esticada de braços no ar, estalando a coluna cervical calejada, nunca fora tão bem-vinda. Alimentar a alma com a magia daquele lugar trazia um alento necessário; mesmo naquela velocidade torturante, cada moinho de vento rústico que passava lentamente pelo horizonte parecia um gigante de madeira zombando abertamente de sua pressa.

Ao se aproximar de Nyborg, já por volta das dezesseis horas, o cheiro forte de salitre e mar tornou-se mais denso na cabine. Ed avistou no horizonte cinzento as silhuetas dos Minestrygere dinamarqueses patrulhando as águas revoltas do Storebælt.

O reino era neutro, mas as marcas da guerra estavam em toda parte: o perigo real flutuava sob as águas geladas em forma de Søminer, as terríveis bombas submersas levadas pela correnteza marítima direto para os canais estreitos de navegação.

Ele apertou com força o couro do volante, sentindo o peso esmagador da responsabilidade. Precisava cruzar aquele espaço de chão até o porto antes das dezessete horas, tempo limite para o fechamento da última janela de navegação diurna para alcançar Korsør, na outra margem.

Por se tratar de um veículo oficial de ajuda humanitária com o brasão da Dansk Røde Kors, os oficiais portuários garantiram uma vaga estratégica para o Büssing na balsa da Dampskibsekspedition que cortaria o Storebælt.

Ponto para a diplomacia e para a fachada britânica.

... Continua...

Esta história tem roteiro original e foi escrita para os nichos literários Hard Sci-Fi (Ficção Científica fundamentada), Romance Histórico/Épico e Romantasy (Romances maduros de fantasia/ficção). Nela há descrições de violência e conotação sexual. Não contém cenas explícitas, mas é recomendável para público adulto.

Imagem: Google AI by Nano Banana 2